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18 de ago. de 2016
Sérvia é 1ª finalista do vôlei feminino com tio de Djokovic como técnico
A Sérvia é a primeira finalista do vôlei feminino dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.
Nesta quinta-feira, no Maracanãzinho, a seleção europeia fez uma partida eletrizante contra os Estados Unidos e, de virada, venceu por 3 sets a 2, com parciais de 20/25, 25/17, 25/21, 16/25 e 15/13.
Essa será a primeira final olímpica da família Djokovic, que será representada por Terzic Zoran, técnico da equipe e tio do melhor tenista do mundo.
A seleção norte-americana começou melhor, mas não conseguiu manter o ritmo no segundo e terceiro set, deixando a Sérvia virar. Com a vantagem, as sérvias se acomodaram e deixaram os Estados Unidos acordarem na partida. No tie-break, porém, as meninas comandadas pelo tio de Djoko levaram a melhor e garantiram a final olímpica.
Agora, a Sérvia espera o vencedor da partida entre China, responsável por eliminar a seleção brasileira, e Holanda, que acontece ainda nesta quinta-feira (18), às 22h15 (de Brasília).
REUTERS/Ricardo Moraes
8 de abr. de 2016
Zé Roberto convoca mais do que planejado e terá de cortar 7 para Rio-20168
O técnico José Roberto Guimarães anunciou nesta segunda-feira (04), no Rio de Janeiro, uma lista de 19 jogadoras convocadas para a temporada 2016 da seleção brasileira de vôlei feminino, que terá como principais competições o Grand Prix e a Rio-2016. O grupo é maior do que o treinador planejava, o que reflete uma série de questões com atletas (Fabíola está grávida, Léia sofreu uma lesão muscular grave, Sheilla tem atuado pouco na Turquia e Jaqueline tem um problema pulmonar, por exemplo). Com isso, ele será obrigado a fazer sete cortes no elenco até o início dos Jogos Olímpicos, em agosto.
A preparação da seleção brasileira será feita em Saquarema (RJ). Léia e Fabiana serão as duas únicas que se apresentarão nesta segunda-feira, e outras 15 atletas são aguardadas no dia 11 de abril. Fernanda Garay e Sheilla, que ainda estão em meio de temporada, devem ser integradas ao grupo apenas depois dos amistosos. Veja as convocadas:
Levantadoras: Dani Lins, Fabíola, Naiane e Roberta.
Opostas: Tandara, Sheilla e Monique
Centrais: Thaísa, Fabiana, Juciely, Carol e Adenizia.
Ponteiras: Jaqueline, Natália, Gabi, Mari Paraíba e Fernanda Garay
Líberos: Camila Brait e Léia
Opostas: Tandara, Sheilla e Monique
Centrais: Thaísa, Fabiana, Juciely, Carol e Adenizia.
Ponteiras: Jaqueline, Natália, Gabi, Mari Paraíba e Fernanda Garay
Líberos: Camila Brait e Léia
"Vocês sabem que eu não gosto de cortes, né? Não vamos reduzir o grupo antes porque não queremos passar por situações como tirar uma jogadora do grupo e depois precisar chamá-la de volta", disse o treinador. Em 2012, com uma dúvida entre a ponteira Natália (que foi escolhida) ou uma segunda líbero, ele deixou para fechar o elenco na vila olímpica de Londres. "Isso pode acontecer de novo, sim", completou.
Zé Roberto pode inscrever 14 jogadoras para o Grand Prix, mas a lista pode mudar a cada fase. Portanto, é possível que ele trabalhe com todo o grupo convocado. Na Rio-2016 são apenas 12 vagas – além das duas competições, a convocação desta segunda-feira servirá apenas para dois amistosos em São José dos Pinhais (PR), nos dias 27 e 29 de abril, ainda sem rival definido.
"Nós gostaríamos de trabalhar com um grupo mais reduzido, mas não podemos ficar com a conta do chá, muito em cima do número de jogadoras. Temos de pensar em vários aspectos de treinamento e de evolução técnica ou tática, mas temos alguns problemas e tivemos de tentar resolver em primeira mão. Dar oportunidade para essas jogadoras tentarem se recuperar para depois fazer um grupo definitivo. Elaboramos um planejamento de treinamento para estes quatro meses que é um pouco diferente do que fizemos nas outras vezes [ouro olímpico em 2008 e 2012]. Vamos conseguir atender esse número de jogadoras e esperamos no fim de maio ter alguma definição", explicou o treinador da equipe nacional.
Entre as jogadoras remanescentes do título de Londres-2012, a ponteira Jaqueline é uma das maiores preocupações. Além de ter feito uma temporada tecnicamente aquém do ideal, a jogadora do Sesi-SP foi internada nesta segunda-feira e ainda não sabe quando poderá se apresentar à seleção.
"Eu continuo preocupado com a Jaqueline. Hoje de manhã ela teve de passar no hospital. Ela está com um problema pulmonar. Estava marcada a apresentação dela em Saquarema, mas ela não se sentiu muito bem e está sendo avaliada neste momento no Sírio. Preocupa nesse sentido. Fisicamente a gente sempre está com atenção grande em relação a ela. É uma jogadora importante, que tem fundamentos significativos a dar para a seleção. A gente espera que ela esteja bem e que possa se apresentar o mais rápido possível", disse Zé Roberto.
Outras jogadoras, como a oposto Sheilla, tiveram temporadas atribuladas no aspecto técnico. A jogadora do Vafifbank (Turquia) chegou a criar uma rotina específica de treinamentos para estar em situação ideal para a seleção brasileira.
"Quando aconteceu o pré-olímpico em Ancara, tive oportunidade de assistir e passei quatro dias com a Sheilla em Istambul. Acompanhei os treinamentos, e a gente conversou muito sobre a preparação dela. Havia uma preocupação por ela não estar jogando, e ela sempre foi um ícone em todos os times", contou Zé Roberto. "Tenho mantido contatos semanais com ela a respeito de preparação e jogos. Notei que ela está muito voltada a disputar uma boa Olimpíada. Está se cuidando muito, dando foco à parte física, com expectativa de jogar sábado ou domingo na semifinal da Champions League", adicionou.
Fabíola também tem uma situação bem específica. A levantadora está grávida e criou um plano totalmente especial para dar à luz e recuperar a forma a tempo da Rio-2016. Ela seria a reserva imediata de Dani Lins, mas a incerteza acerca desse processo abriu espaço para Roberta (Rexona/Ades-RJ) e Naiane (Camponesa-Minas-MG).
"Sobre a Fabíola, nós estamos todos nos empenhando para que ela consiga treinar e participar. Vai depender muito do que acontecer no futuro. É necessário que seja um parto normal, ela não pode ter outro tipo de parto, e tudo tem de caminhar da melhor maneira possível para que ela tenha tempo hábil para treinamento. O tempo vai ser curto, mas por toda a experiência que essa jogadora tem a gente achou por bem tentar", encerrou o treinador da seleção brasileira.
Zé Roberto pode inscrever 14 jogadoras para o Grand Prix, mas a lista pode mudar a cada fase. Portanto, é possível que ele trabalhe com todo o grupo convocado. Na Rio-2016 são apenas 12 vagas – além das duas competições, a convocação desta segunda-feira servirá apenas para dois amistosos em São José dos Pinhais (PR), nos dias 27 e 29 de abril, ainda sem rival definido.
"Nós gostaríamos de trabalhar com um grupo mais reduzido, mas não podemos ficar com a conta do chá, muito em cima do número de jogadoras. Temos de pensar em vários aspectos de treinamento e de evolução técnica ou tática, mas temos alguns problemas e tivemos de tentar resolver em primeira mão. Dar oportunidade para essas jogadoras tentarem se recuperar para depois fazer um grupo definitivo. Elaboramos um planejamento de treinamento para estes quatro meses que é um pouco diferente do que fizemos nas outras vezes [ouro olímpico em 2008 e 2012]. Vamos conseguir atender esse número de jogadoras e esperamos no fim de maio ter alguma definição", explicou o treinador da equipe nacional.
Entre as jogadoras remanescentes do título de Londres-2012, a ponteira Jaqueline é uma das maiores preocupações. Além de ter feito uma temporada tecnicamente aquém do ideal, a jogadora do Sesi-SP foi internada nesta segunda-feira e ainda não sabe quando poderá se apresentar à seleção.
"Eu continuo preocupado com a Jaqueline. Hoje de manhã ela teve de passar no hospital. Ela está com um problema pulmonar. Estava marcada a apresentação dela em Saquarema, mas ela não se sentiu muito bem e está sendo avaliada neste momento no Sírio. Preocupa nesse sentido. Fisicamente a gente sempre está com atenção grande em relação a ela. É uma jogadora importante, que tem fundamentos significativos a dar para a seleção. A gente espera que ela esteja bem e que possa se apresentar o mais rápido possível", disse Zé Roberto.
Outras jogadoras, como a oposto Sheilla, tiveram temporadas atribuladas no aspecto técnico. A jogadora do Vafifbank (Turquia) chegou a criar uma rotina específica de treinamentos para estar em situação ideal para a seleção brasileira.
"Quando aconteceu o pré-olímpico em Ancara, tive oportunidade de assistir e passei quatro dias com a Sheilla em Istambul. Acompanhei os treinamentos, e a gente conversou muito sobre a preparação dela. Havia uma preocupação por ela não estar jogando, e ela sempre foi um ícone em todos os times", contou Zé Roberto. "Tenho mantido contatos semanais com ela a respeito de preparação e jogos. Notei que ela está muito voltada a disputar uma boa Olimpíada. Está se cuidando muito, dando foco à parte física, com expectativa de jogar sábado ou domingo na semifinal da Champions League", adicionou.
Fabíola também tem uma situação bem específica. A levantadora está grávida e criou um plano totalmente especial para dar à luz e recuperar a forma a tempo da Rio-2016. Ela seria a reserva imediata de Dani Lins, mas a incerteza acerca desse processo abriu espaço para Roberta (Rexona/Ades-RJ) e Naiane (Camponesa-Minas-MG).
"Sobre a Fabíola, nós estamos todos nos empenhando para que ela consiga treinar e participar. Vai depender muito do que acontecer no futuro. É necessário que seja um parto normal, ela não pode ter outro tipo de parto, e tudo tem de caminhar da melhor maneira possível para que ela tenha tempo hábil para treinamento. O tempo vai ser curto, mas por toda a experiência que essa jogadora tem a gente achou por bem tentar", encerrou o treinador da seleção brasileira.
2 de abr. de 2016
Rio-2016 vira "sombra" na decisão do principal torneio de vôlei do país
Marcado para 9h (de Brasília) do próximo domingo (03), em Brasília, o confronto entre Rexona/Ades (RJ) e Dentil/Praia Clube (MG) definirá o título da principal competição nacional de vôlei feminino na temporada 2016. Para algumas atletas que estarão em quadra, porém, a taça da Superliga não é o único sonho extremamente próximo.
Na segunda-feira (04), pouco mais de 24 horas depois da decisão, o técnico José Roberto Guimarães divulgará convocação para a temporada 2016 da seleção brasileira e vai encaminhar a montagem do grupo que representará o país nas Olimpíadas do Rio de Janeiro.
A composição da lista final para os Jogos tem apenas três grandes incógnitas, e a expectativa criada em torno disso terá reflexo direto no duelo previsto para o ginásio Nilson Nelson.
Do time que o Rexona deve mandar à quadra no domingo, a líbero Fabi, 36, é a única que não vive tensão sobre a lista de segunda-feira. Titular da seleção em dois ciclos olímpicos vitoriosos (2008 e 2012), a jogadora se despediu da equipe nacional em 2013. As outras titulares da equipe carioca (Gabi, Natália, Carol, Juciely, Monique e Roberta) sonham com uma lembrança de Zé Roberto.
"Ano olímpico é especial. Quem já figura na lista há algum tempo, como a [ponteira] Natália ou a [ponteira] Gabi, já tem uma coisa diferente. Imagina então para quem pode viver esse momento pela primeira vez. É a temporada em que todo mundo quer dar trabalho para o Zé Roberto", disse Fabi.
Roberta talvez seja representação mais clara dessa dupla ansiedade. A levantadora de 26 anos já foi reserva de nomes como Dani Lins, Fernanda Venturini e Fofão no Rio de Janeiro e passou grande parte da atual temporada no banco da norte-americana Courtney Thompson. Entrou no lugar dela no segundo confronto da semifinal contra o Vôlei Nestlé/Osasco, mudou o andamento do duelo e ascendeu à formação titular na partida seguinte.
A reserva da levantadora Dani Lins é uma das lacunas na seleção brasileira para a Rio-2016. Fabíola, favorita a essa vaga, está grávida e terá pouquíssimo tempo para se recondicionar até os Jogos. Roberta desponta hoje como maior candidata a alternativa. "Lógico que eu penso e que espero ansiosamente por essa lista, para ver meu nome lá, mas agora é um momento de final. Preciso estar focada", ponderou a atleta da equipe carioca.
Internamente, Roberta e Monique são as jogadoras do Rio de Janeiro que mais falam sobre a convocação de segunda-feira. "Por ser novidade, acho que eu converso um pouco mais. Ela também está bem apreensiva", entregou a levantadora.
O futuro de Monique nos Jogos Olímpicos, curiosamente, passa por uma companheira dela no Rexona. Natália é nome certo na lista de José Roberto Guimarães para a Rio-2016, mas é versátil e pode ocupar vaga de ponteira ou oposta.
"A ansiedade é mais para domingo. Segunda a gente vai estar de férias e pensa na lista. Um passo de cada vez", comentou Monique. A oposto fará em 2016 a primeira decisão como titular do Rio de Janeiro e enfrentará Michele, sua irmã gêmea, ponteira titular do Praia Clube.
A outra interrogação sobre a seleção para os Jogos é a terceira central. Fabiana e Thaísa, titulares da posição, serão chamadas. Carol e Juciely, ambas do Rio de Janeiro, são candidatas.
"Uma coisa que contribui muito é que a lista só sai na segunda. Ninguém vai estar animado ou frustrado no domingo. Outra questão é ter a cabeça tranquila. Tenho certeza que o Zé não vai observar só esse jogo. Ele está estudando as meninas há algum tempo", finalizou Fabi.
Tamanho da lista de segunda-feira também é um mistério
A próxima convocação da seleção ainda não é a definitiva para os Jogos Olímpicos. A lista terá as atletas que disputarão o Grand Prix de 2016 e ainda pode sofrer mutações, mas a tendência é que isso aconteça pouco.Nos dois últimos ciclos, Zé Roberto fez convocações enxutas nessa época e mudou pouco o grupo até os Jogos. A lista desta segunda não deve ter a ponteira Fernanda Garay ou a oposto Sheilla, que estão em meio de temporada na Europa, e isso pode causar um alargamento do grupo inicial.
Guilherme Costa e Leandro Carneiro(Uol)
http://olimpiadas.uol.com.br/noticias/2016/04/02/rio-2016-vira-sombra-na-decisao-do-principal-torneio-de-volei-do-pais.htm
26 de jul. de 2013
Ana Moser lidera movimento de atletas por “legado positivo” das Olimpíadas
Ela jogou três Olimpíadas, Seul (1988), Barcelona (1992) e Atlanta (1996), quando a seleção brasileira de vôlei conquistou sua primeira medalha (de bronze), venceu dois Grand Prix de Vôlei (em 1994 e 1996) e entrou para o seleto grupo do Hall da Fama do Vôlei dez anos depois de deixar de ser atleta profissional. Fora das quadras, não deixou de se dedicar ao esporte, mas com outro foco. Em vez de conquistar medalhas ela luta para que o esporte seja um direito da população. E quer que seja essa a prioridade do Brasil que se prepara para receber as Olimpíadas de 2016.
“O esporte para todos” é o bordão da presidente da associação Atletas pela Cidadania, fundada por ela e outros nomes de peso do esporte nacional como Raí, Joaquim Cruz, Cafú, Dunga, Edmilson, Fernanda Keller, Fernando Scherer (Xuxa), Hortência e o seu colega de vôlei Giovane.
O objetivo é universalizar a prática do esporte nas escolas e incrementar sua prática entre os brasileiros em geral através da criação de um Sistema Nacional de Esporte, com estrutura legal, recursos adequados e transparência. Em vez de passivos espectadores de um megaevento que por enquanto tem trazido mais prejuízo do que benefício à população, Ana e seus colegas querem contribuir para que a realização das Olimpíadas deixe um “legado positivo” para a prática do esporte no Brasil.
Esse é o foco do manifesto “Atletas pelo Brasil” que a associação lança hoje (leia aqui) para chamar a atenção para a necessidade de criar uma política pública para a prática do esporte e apresentar três propostas concretas: a instituição de um comitê interministerial para reestruturar a legislação do sistema esportivo nacional e a criação de um Plano Nacional de Esporte; a aprovação de legislação sobre as condições necessárias para as entidades do Sistema Nacional de Esporte receberem recursos públicos (emenda nº à MP 612 e emenda nº à MP 615); e a total transparência dos investimentos e das apurações referentes às denúncias de violações de direitos humanos nos grandes eventos esportivos.
Em entrevista à Pública, Ana explica em primeira mão o que pretendem os atletas com essas propostas e por que elas podem mudar a realidade do esporte no país. Leia a seguir:
Como foi o seu acesso ao esporte? Eu sou de Blumenau, Santa Catarina. Ali a colonização alemã e italiana é muito forte. E o esporte é cultural; na Europa, faz parte do dia a dia das famílias, das cidades. Então eu comecei antes de ter esporte na escola, num clube, aos sete anos, depois na escola, estudei em colégio particular. Então, quer dizer, eu não sou o padrão. E, para mim, sempre foi esporte pelo esporte, pelas coisas boas que ele traz. Fui virar atleta depois de adolescente, com 17 anos. Até lá o esporte na minha vida era cultural. E essa visão que eu trago nas atuações que eu tenho.
Uma das bandeiras que a ONG Atletas pela Cidadania defende é o esporte acessível a todos os brasileiros. Quão distantes estamos desse cenário? Na real, esporte de pobre e esporte de rico não tem. Todos são carentes nesse sentido. Rico e pobre. Carentes por bons lugares, aptos para a prática esportiva. Nos Estados Unidos, por exemplo, você tem as associações de bairro em que se começa a praticar o esporte até que na escola vira uma coisa mais séria. Mas a raiz é comunitária. E aqui nós não temos isso. Então eu vejo que todos os setores têm carência, e dizer o quão longe a gente está é uma suposição, porque os dados mesmo a gente não tem. Tem algumas pesquisas, mas insuficientes. Eu imagino que estejamos num patamar de 20 a 30% da população que pratica esportes, pessoas realmente ativas.
Publicamente você não se manifestou contra a vinda dos Jogos Olímpicos, mas você me disse que você é contrária. Por que? Acho que não faz sentido. A grande chance na estrutura que estava naquele momento, e acho até que já involuímos de lá para cá, era de direcionar investimentos no esporte para todos, o esporte que não envolve medalhas. Eu tenho até um amigo que é empresário e que investe em esporte, que tem a mesma visão. As Olimpíadas trouxeram o foco no esporte de rendimento, então nós nos estruturamos errado. Há um foco em esporte nesse momento, há muitos investimentos, mas não se consegue investir no esporte para todos. E tem boas ações nesse sentido, no governo, na sociedade civil. Mas na época eu tinha uma visão mais conservadora. Eu achava que se ocorressem os grandes eventos iria se concentrar os investimentos em esporte, tanto na questão da infraestrutura e preparação da equipe olímpica.
Mas eu vi que se se investir só nisso, você não tem impacto embaixo. Por dois anos eu vi isso acontecer no Instituto Esporte e Educação (outra ONG presidida por ela): caiu em 70% a captação de recursos privados para projetos de esportes para todos, para todos os projetos esportivos que não envolvem medalhas. O Ministério do Esporte está construindo ginásios, estádios, cuidando de aeroporto, de orçamento, e daqui a pouco vai cuidar do Parque Olimpíco, botando recurso direto nas confederações e no COB.
Mas, por outro lado, se trouxe o esporte para o centro do interesse nacional. E nós estamos agora querendo juntar forças para lutar por um outro lado: investe em cima, mas estrutura embaixo para tornar sustentável e transformar em legado. Se não, fica aquele negócio: o que que eu ganho com isso?
Você é uma ex-atleta que está militando pelo esporte para todos em nível nacional. Falta mais posicionamento dos atletas e ex-atletas que tenham algum prestígio em questões relacionadas à gestão política do esporte? A gente até criou a ONG Atletas por isso também, para criar entre os atletas essa cultura de participação. Mas em relação a atletas em atividade é complicado. Eu tinha assinado na CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) um código de ética que dizia que eu não poderia falar contra a CBV. Se eu falasse na imprensa alguma coisa eu pagava uma multa. Então é complicado. A gente está caminhando, mas o sistema é ainda muito conservador.
E por que vocês estão lançando esse manifesto agora, que destaca entre outras coisas, as violações de direitos humanos nos megaeventos?
A gente está na rua há uns cinco anos, mais focados nos bastidores, em movimentação interna no esporte, com menos campanhas para fora. É um movimento grande, e estamos sós nesse sentido, ainda ganhando forças. E agora a gente criou uma maturidade, uma condição de irmos para fora com mais força, e quer dar mais visibilidade às denúncias, primeiramente, para mitigar essa situação. Todo mundo sabe que foi feita muita coisa – e muito rápido – na preparação para os grandes eventos esportivos. E tudo muito escondido, em momentos de trocas de gestão, sem que houvesse contrapartidas. Por exemplo, você não tem como fazer um evento para atrair visitantes e deixar que os nossos saiam de suas casas! Seja na condição que for, invasão, “não-invasão”, com cinco ou 40 anos de existência, comunidades foram destruídas. Então somos solidários e queremos ajudar primeiro com a divulgação [das denúncias], para dar mais voz às pessoas que estão nessa situação. E também nos somamos para exigir transparência nos gastos públicos. Tem estudos da FGV que falam em retorno desses investimentos na ordem de R$ 147 bilhões. Queremos nos somar para promover um debate qualificado sobre isso também. Se trará lucro, como vamos distribuí-lo? Se não trará esse lucro todo, como se potencializa esses eventos? Acho que a gente tem que encarar isso com responsabilidade. E enquanto ONG queremos propor discussões como essa.
Outra bandeira que vocês levantam é a revisão do Sistema Esportivo Nacional… Na verdade a construção, porque o sistema nem existe… O esporte de elite e especificamente o futebol é bem estruturado. Mas as outras dimensões não estão. Não existem serviços públicos de esporte a longo prazo. Então o que as Prefeituras investem em termos de esporte atualmente? Ok, tem as escolas, a educação física, teoricamente. Mas depende ali do orçamento em Educação e do que a gestão municipal queira fazer. E o resto da população? Como ela é atendida em esporte? Não existe uma regra para isso, não existe orçamento para isso. As Prefeituras, as Secretarias de Esporte tem 0,5% do orçamento total! Então não existe.
A gente teve programas, o Segundo Tempo, o Mais Educação, em que alguns municípios investiram em mobilidade, pistas de corrida, ciclofaixas, ciclovias, parques, e outros não. Ou uma gestão faz e outras não. Não existe nada estruturante no esporte. Por exemplo, quais as funções da Federação? Do Estado? Do município? Então queremos essa estrutura para guiar os investimentos em esporte.
Quem formaria o Comitê Interministerial, proposto por vocês, e como ele atuaria na disseminação da prática esportiva?
O Comitê seria formado pelos ministérios da Saúde, da Educação e, claro, do Esporte. A questão é como você coloca a questão da disseminação da prática esportiva para todos, mas com uma abordagem em outras áreas de influência. Não é que não tenha nada, existem alguns projetos. Por exemplo, existe o projeto Mais Educação, uma estratégia do Ministério do Esporte junto com o programa de Educação, que injeta dinheiro direto nas escolas, e tem lá no cardápio de opções o esporte, uma meta para se investir em uma política de escola integral, e se pretende também incluir pautas ligadas ao esporte, como a ampliação e a qualificação do esporte para toda a rede pública de ensino.
Há então uma combinação de recursos e de estratégias, entre o Ministério do Esporte e o Ministério da Educação, para ver como é possível viabilizar isto, mas há dificuldades em adequar uma política e uma visão para guiar essa estratégia. O Ministério do Esporte, por exemplo, acha que só professor de educação física pode realizar atividades no Mais Educação. Mas o Ministério da Educação, que é quem tem a escola, não tem professores lá na ponta, aí entra toda uma rede comunitária, com professores de capoeira, tudo mais, para suprir essa demanda. Mas com a Educação já tem uma entrada. Com relação ao [ministério] da Saúde, pensamos em um programa de como usar o esporte na prevenção de doenças coronárias, respiratórias, diabetes…A saúde tem programas, o esporte tem programas, mas como é que se potencializa isso em termos de recurso e como se potencializa isso em termos de se criar uma linha de atuação? E também pensamos em uma participação da sociedade, que teria voz e voto nesse comitê. Porque a sociedade já desenvolve programas e metodologias na ponta, em menor escala, e o poder público tem que dar a escala.
E como a sociedade participaria desse comitê? Isso já existe em outras áreas, na questão da Lei do Aprendiz, por exemplo. Ela também é interministerial: tem o Ministério da Educação, a sociedade civil, as delegacias regionais do trabalho… enfim, tudo que diz respeito ao setor representado. Então os agentes do esporte, o COB, as confederações, a rede de ONGs, as universidades, os conselhos regionais, cicloativistas, enfim, todos aqueles que fazem o esporte acontecer teriam lugar em sua composição. Pretendemos a criação de um projeto de lei para regulamentar e disseminar a organização e a participação de conselhos municipais, estaduais e nacional de esportes, como existe em outras áreas. E também queremos criar um fundo para fazer levantamento de dados, porque não temos praticamente nada e é a primeira coisa necessária para criar políticas públicas. Na área da educação, por exemplo, você tem uma base de dados suficiente para orientar políticas, o Plano Nacional de Educação, na área da saúde também tem. Então é essa mesma evolução que o esporte pode ter e isso que a gente quer dizer com reestruturar o Sistema Nacional de Esporte. Tudo começa com um posicionamento do governo de enfrentar seriamente e dar prioridade a essa estruturação. Enxergar isso como legado dos grandes eventos, e entregar para a sociedade como um legado que vai ficar além de 2016.
E como se faria para criar essa base de dados? Quais atores poderiam ajudar nesse processo? Tem muita gente mexendo com isso, desde a Unicef a ONGs. A gente está criando com o UniEthos uma série de indicadores de monitoramento do esporte nas cidades-sede da Copa do Mundo, que é um programa do Atletas junto com o Instituto para a Educação. Temos muito poucos dados atualmente, dados de educação física no esporte que são sobre as escolas brasileiras da rede pública, com número de quadras abertas ou cobertas, número de professores contratados, mas não se sabe nem se eles estão dando aulas ou estão na parte administrativa, para quantos alunos eles estão dando aula, quantas horas de esporte os alunos praticam por semana, os programas complementares às escolas. Olha que dilema: no Ensino Fundamental I, que é do primeiro ao quinto ano, não tem professor especialista em educação física. Então, teoricamente, tem educação física na grade, mas quem é que dá essas aulas? O professor de sala. Mas qual é a preparação ele tem para dar essas aulas? Qual conhecimento? Qual linha ele segue? Qual política? Enfim, o que ele faz? Ele é atleta amador, ou foi? Como ele dá as aulas? Só roda uma bola? Então essas aulas de educação física não existem na prática, mas ninguém fala disso porque não é um dado que aparece. E isso no Brasil inteiro, não é só no interiorzão, sertão, não. As capitais do nordeste, por exemplo. Em Minas também, você sai de Belo Horizonte, você não acha um professor de educação física.
Vocês também falam também em limitar mandatos de dirigentes esportivos, né? Essa é uma emenda que a gente propôs à MP 612, uma questão importante na moralização, na gestão do esporte. Porque também é recurso público, também representa a nossa bandeira, então é um caminho de avanço que queremos para o nosso esporte. Também propusemos uma adequação na MP 615, que é uma adequação da Lei Pelé. As confederações, as federações e o COB têm direito a recurso público na medida em que tomarem algumas medidas, como a participação de atletas na gestão, fiscalização e eleição de dirigentes, a de estabelecer dois mandatos de quatro anos no máximo, de ter prestação de contas, transparência.
Sobre a atual gestão da Confederação de Vôlei, como você avalia? É um modelo econômico que funciona, tem planejamento a longo prazo. A dimensão que vejo do esporte de rendimento é com as outras dimensões do esporte, o esporte na escola, iniciação esportiva. Por exemplo, existe a Lei Piva, que é um percentual das loterias esportivas, que vai para o COB e ele distribui por critérios próprios para as confederações. O quanto desse recurso é investido nas federações dos estados ou no desenvolvimento do esporte nos estados? No vôlei, você tem um modelo de seleção brasileira, no topo de categoria, com centro de treinamento, e uma Superliga. E agora uma Liga B, mas nos Estados é fraco. Então você tem na verdade uma máquina de renovação [de jogadores] de dez, doze clubes espalhados aí pelo Brasil, mas as federações não agem para disseminar a prática do vôlei na sociedade. Não tem volume, escala da prática esportiva. Quantas crianças praticam o esporte? Quantas crianças de 10 a 16 anos participam de campeonatos regionais? Essa é a questão. Queremos um esporte presente em todos os níveis para as pessoas, para ter uma população ativa. O que é o futebol de várzea, por exemplo? Existe em tudo que é lugar, em todos os níveis, e tem outros esportes também. Mas e o investimento nessas áreas, nesses modelos de praticar o esporte? São debates que estão na rua há muito tempo. É isso que está posto: vão passar a Copa do Mundo e as Olimpíadas, mas fica o que para o país? É isso que estamos questionando.
O que você espera para para o próximo ciclo olímpico, após as Olimpíadas de 2016? Quais pautas a ONG propõe para haver uma preparação melhor? A gente propõe um caminho que começa agora e termina em 2022 de ter todas as crianças em todas as escolas do Brasil com educação física e atividade esportiva, dobrar a prática de esporte na população e construir esse Sistema Nacional de Esportes de maneira que ele garanta uma estrutura legal e de recursos para que o esporte aconteça nas várias condições. Quanto mais o Brasil avançar na disseminação da prática de esportes e na disseminação da cultura ativa, mais a população em geral vai ganhar em qualidade de vida.
Leia Manifesto dos Atletas por uma copa mais decente
APública:.Ana Moser lidera movimento de atletas
“O esporte para todos” é o bordão da presidente da associação Atletas pela Cidadania, fundada por ela e outros nomes de peso do esporte nacional como Raí, Joaquim Cruz, Cafú, Dunga, Edmilson, Fernanda Keller, Fernando Scherer (Xuxa), Hortência e o seu colega de vôlei Giovane.
O objetivo é universalizar a prática do esporte nas escolas e incrementar sua prática entre os brasileiros em geral através da criação de um Sistema Nacional de Esporte, com estrutura legal, recursos adequados e transparência. Em vez de passivos espectadores de um megaevento que por enquanto tem trazido mais prejuízo do que benefício à população, Ana e seus colegas querem contribuir para que a realização das Olimpíadas deixe um “legado positivo” para a prática do esporte no Brasil.
Esse é o foco do manifesto “Atletas pelo Brasil” que a associação lança hoje (leia aqui) para chamar a atenção para a necessidade de criar uma política pública para a prática do esporte e apresentar três propostas concretas: a instituição de um comitê interministerial para reestruturar a legislação do sistema esportivo nacional e a criação de um Plano Nacional de Esporte; a aprovação de legislação sobre as condições necessárias para as entidades do Sistema Nacional de Esporte receberem recursos públicos (emenda nº à MP 612 e emenda nº à MP 615); e a total transparência dos investimentos e das apurações referentes às denúncias de violações de direitos humanos nos grandes eventos esportivos.
Em entrevista à Pública, Ana explica em primeira mão o que pretendem os atletas com essas propostas e por que elas podem mudar a realidade do esporte no país. Leia a seguir:
Como foi o seu acesso ao esporte? Eu sou de Blumenau, Santa Catarina. Ali a colonização alemã e italiana é muito forte. E o esporte é cultural; na Europa, faz parte do dia a dia das famílias, das cidades. Então eu comecei antes de ter esporte na escola, num clube, aos sete anos, depois na escola, estudei em colégio particular. Então, quer dizer, eu não sou o padrão. E, para mim, sempre foi esporte pelo esporte, pelas coisas boas que ele traz. Fui virar atleta depois de adolescente, com 17 anos. Até lá o esporte na minha vida era cultural. E essa visão que eu trago nas atuações que eu tenho.
Uma das bandeiras que a ONG Atletas pela Cidadania defende é o esporte acessível a todos os brasileiros. Quão distantes estamos desse cenário? Na real, esporte de pobre e esporte de rico não tem. Todos são carentes nesse sentido. Rico e pobre. Carentes por bons lugares, aptos para a prática esportiva. Nos Estados Unidos, por exemplo, você tem as associações de bairro em que se começa a praticar o esporte até que na escola vira uma coisa mais séria. Mas a raiz é comunitária. E aqui nós não temos isso. Então eu vejo que todos os setores têm carência, e dizer o quão longe a gente está é uma suposição, porque os dados mesmo a gente não tem. Tem algumas pesquisas, mas insuficientes. Eu imagino que estejamos num patamar de 20 a 30% da população que pratica esportes, pessoas realmente ativas.
Publicamente você não se manifestou contra a vinda dos Jogos Olímpicos, mas você me disse que você é contrária. Por que? Acho que não faz sentido. A grande chance na estrutura que estava naquele momento, e acho até que já involuímos de lá para cá, era de direcionar investimentos no esporte para todos, o esporte que não envolve medalhas. Eu tenho até um amigo que é empresário e que investe em esporte, que tem a mesma visão. As Olimpíadas trouxeram o foco no esporte de rendimento, então nós nos estruturamos errado. Há um foco em esporte nesse momento, há muitos investimentos, mas não se consegue investir no esporte para todos. E tem boas ações nesse sentido, no governo, na sociedade civil. Mas na época eu tinha uma visão mais conservadora. Eu achava que se ocorressem os grandes eventos iria se concentrar os investimentos em esporte, tanto na questão da infraestrutura e preparação da equipe olímpica.
Mas eu vi que se se investir só nisso, você não tem impacto embaixo. Por dois anos eu vi isso acontecer no Instituto Esporte e Educação (outra ONG presidida por ela): caiu em 70% a captação de recursos privados para projetos de esportes para todos, para todos os projetos esportivos que não envolvem medalhas. O Ministério do Esporte está construindo ginásios, estádios, cuidando de aeroporto, de orçamento, e daqui a pouco vai cuidar do Parque Olimpíco, botando recurso direto nas confederações e no COB.
Mas, por outro lado, se trouxe o esporte para o centro do interesse nacional. E nós estamos agora querendo juntar forças para lutar por um outro lado: investe em cima, mas estrutura embaixo para tornar sustentável e transformar em legado. Se não, fica aquele negócio: o que que eu ganho com isso?
Você é uma ex-atleta que está militando pelo esporte para todos em nível nacional. Falta mais posicionamento dos atletas e ex-atletas que tenham algum prestígio em questões relacionadas à gestão política do esporte? A gente até criou a ONG Atletas por isso também, para criar entre os atletas essa cultura de participação. Mas em relação a atletas em atividade é complicado. Eu tinha assinado na CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) um código de ética que dizia que eu não poderia falar contra a CBV. Se eu falasse na imprensa alguma coisa eu pagava uma multa. Então é complicado. A gente está caminhando, mas o sistema é ainda muito conservador.
E por que vocês estão lançando esse manifesto agora, que destaca entre outras coisas, as violações de direitos humanos nos megaeventos?
A gente está na rua há uns cinco anos, mais focados nos bastidores, em movimentação interna no esporte, com menos campanhas para fora. É um movimento grande, e estamos sós nesse sentido, ainda ganhando forças. E agora a gente criou uma maturidade, uma condição de irmos para fora com mais força, e quer dar mais visibilidade às denúncias, primeiramente, para mitigar essa situação. Todo mundo sabe que foi feita muita coisa – e muito rápido – na preparação para os grandes eventos esportivos. E tudo muito escondido, em momentos de trocas de gestão, sem que houvesse contrapartidas. Por exemplo, você não tem como fazer um evento para atrair visitantes e deixar que os nossos saiam de suas casas! Seja na condição que for, invasão, “não-invasão”, com cinco ou 40 anos de existência, comunidades foram destruídas. Então somos solidários e queremos ajudar primeiro com a divulgação [das denúncias], para dar mais voz às pessoas que estão nessa situação. E também nos somamos para exigir transparência nos gastos públicos. Tem estudos da FGV que falam em retorno desses investimentos na ordem de R$ 147 bilhões. Queremos nos somar para promover um debate qualificado sobre isso também. Se trará lucro, como vamos distribuí-lo? Se não trará esse lucro todo, como se potencializa esses eventos? Acho que a gente tem que encarar isso com responsabilidade. E enquanto ONG queremos propor discussões como essa.
Outra bandeira que vocês levantam é a revisão do Sistema Esportivo Nacional… Na verdade a construção, porque o sistema nem existe… O esporte de elite e especificamente o futebol é bem estruturado. Mas as outras dimensões não estão. Não existem serviços públicos de esporte a longo prazo. Então o que as Prefeituras investem em termos de esporte atualmente? Ok, tem as escolas, a educação física, teoricamente. Mas depende ali do orçamento em Educação e do que a gestão municipal queira fazer. E o resto da população? Como ela é atendida em esporte? Não existe uma regra para isso, não existe orçamento para isso. As Prefeituras, as Secretarias de Esporte tem 0,5% do orçamento total! Então não existe.
A gente teve programas, o Segundo Tempo, o Mais Educação, em que alguns municípios investiram em mobilidade, pistas de corrida, ciclofaixas, ciclovias, parques, e outros não. Ou uma gestão faz e outras não. Não existe nada estruturante no esporte. Por exemplo, quais as funções da Federação? Do Estado? Do município? Então queremos essa estrutura para guiar os investimentos em esporte.
Quem formaria o Comitê Interministerial, proposto por vocês, e como ele atuaria na disseminação da prática esportiva?
O Comitê seria formado pelos ministérios da Saúde, da Educação e, claro, do Esporte. A questão é como você coloca a questão da disseminação da prática esportiva para todos, mas com uma abordagem em outras áreas de influência. Não é que não tenha nada, existem alguns projetos. Por exemplo, existe o projeto Mais Educação, uma estratégia do Ministério do Esporte junto com o programa de Educação, que injeta dinheiro direto nas escolas, e tem lá no cardápio de opções o esporte, uma meta para se investir em uma política de escola integral, e se pretende também incluir pautas ligadas ao esporte, como a ampliação e a qualificação do esporte para toda a rede pública de ensino.
Há então uma combinação de recursos e de estratégias, entre o Ministério do Esporte e o Ministério da Educação, para ver como é possível viabilizar isto, mas há dificuldades em adequar uma política e uma visão para guiar essa estratégia. O Ministério do Esporte, por exemplo, acha que só professor de educação física pode realizar atividades no Mais Educação. Mas o Ministério da Educação, que é quem tem a escola, não tem professores lá na ponta, aí entra toda uma rede comunitária, com professores de capoeira, tudo mais, para suprir essa demanda. Mas com a Educação já tem uma entrada. Com relação ao [ministério] da Saúde, pensamos em um programa de como usar o esporte na prevenção de doenças coronárias, respiratórias, diabetes…A saúde tem programas, o esporte tem programas, mas como é que se potencializa isso em termos de recurso e como se potencializa isso em termos de se criar uma linha de atuação? E também pensamos em uma participação da sociedade, que teria voz e voto nesse comitê. Porque a sociedade já desenvolve programas e metodologias na ponta, em menor escala, e o poder público tem que dar a escala.
E como a sociedade participaria desse comitê? Isso já existe em outras áreas, na questão da Lei do Aprendiz, por exemplo. Ela também é interministerial: tem o Ministério da Educação, a sociedade civil, as delegacias regionais do trabalho… enfim, tudo que diz respeito ao setor representado. Então os agentes do esporte, o COB, as confederações, a rede de ONGs, as universidades, os conselhos regionais, cicloativistas, enfim, todos aqueles que fazem o esporte acontecer teriam lugar em sua composição. Pretendemos a criação de um projeto de lei para regulamentar e disseminar a organização e a participação de conselhos municipais, estaduais e nacional de esportes, como existe em outras áreas. E também queremos criar um fundo para fazer levantamento de dados, porque não temos praticamente nada e é a primeira coisa necessária para criar políticas públicas. Na área da educação, por exemplo, você tem uma base de dados suficiente para orientar políticas, o Plano Nacional de Educação, na área da saúde também tem. Então é essa mesma evolução que o esporte pode ter e isso que a gente quer dizer com reestruturar o Sistema Nacional de Esporte. Tudo começa com um posicionamento do governo de enfrentar seriamente e dar prioridade a essa estruturação. Enxergar isso como legado dos grandes eventos, e entregar para a sociedade como um legado que vai ficar além de 2016.
E como se faria para criar essa base de dados? Quais atores poderiam ajudar nesse processo? Tem muita gente mexendo com isso, desde a Unicef a ONGs. A gente está criando com o UniEthos uma série de indicadores de monitoramento do esporte nas cidades-sede da Copa do Mundo, que é um programa do Atletas junto com o Instituto para a Educação. Temos muito poucos dados atualmente, dados de educação física no esporte que são sobre as escolas brasileiras da rede pública, com número de quadras abertas ou cobertas, número de professores contratados, mas não se sabe nem se eles estão dando aulas ou estão na parte administrativa, para quantos alunos eles estão dando aula, quantas horas de esporte os alunos praticam por semana, os programas complementares às escolas. Olha que dilema: no Ensino Fundamental I, que é do primeiro ao quinto ano, não tem professor especialista em educação física. Então, teoricamente, tem educação física na grade, mas quem é que dá essas aulas? O professor de sala. Mas qual é a preparação ele tem para dar essas aulas? Qual conhecimento? Qual linha ele segue? Qual política? Enfim, o que ele faz? Ele é atleta amador, ou foi? Como ele dá as aulas? Só roda uma bola? Então essas aulas de educação física não existem na prática, mas ninguém fala disso porque não é um dado que aparece. E isso no Brasil inteiro, não é só no interiorzão, sertão, não. As capitais do nordeste, por exemplo. Em Minas também, você sai de Belo Horizonte, você não acha um professor de educação física.
Vocês também falam também em limitar mandatos de dirigentes esportivos, né? Essa é uma emenda que a gente propôs à MP 612, uma questão importante na moralização, na gestão do esporte. Porque também é recurso público, também representa a nossa bandeira, então é um caminho de avanço que queremos para o nosso esporte. Também propusemos uma adequação na MP 615, que é uma adequação da Lei Pelé. As confederações, as federações e o COB têm direito a recurso público na medida em que tomarem algumas medidas, como a participação de atletas na gestão, fiscalização e eleição de dirigentes, a de estabelecer dois mandatos de quatro anos no máximo, de ter prestação de contas, transparência.
Sobre a atual gestão da Confederação de Vôlei, como você avalia? É um modelo econômico que funciona, tem planejamento a longo prazo. A dimensão que vejo do esporte de rendimento é com as outras dimensões do esporte, o esporte na escola, iniciação esportiva. Por exemplo, existe a Lei Piva, que é um percentual das loterias esportivas, que vai para o COB e ele distribui por critérios próprios para as confederações. O quanto desse recurso é investido nas federações dos estados ou no desenvolvimento do esporte nos estados? No vôlei, você tem um modelo de seleção brasileira, no topo de categoria, com centro de treinamento, e uma Superliga. E agora uma Liga B, mas nos Estados é fraco. Então você tem na verdade uma máquina de renovação [de jogadores] de dez, doze clubes espalhados aí pelo Brasil, mas as federações não agem para disseminar a prática do vôlei na sociedade. Não tem volume, escala da prática esportiva. Quantas crianças praticam o esporte? Quantas crianças de 10 a 16 anos participam de campeonatos regionais? Essa é a questão. Queremos um esporte presente em todos os níveis para as pessoas, para ter uma população ativa. O que é o futebol de várzea, por exemplo? Existe em tudo que é lugar, em todos os níveis, e tem outros esportes também. Mas e o investimento nessas áreas, nesses modelos de praticar o esporte? São debates que estão na rua há muito tempo. É isso que está posto: vão passar a Copa do Mundo e as Olimpíadas, mas fica o que para o país? É isso que estamos questionando.
O que você espera para para o próximo ciclo olímpico, após as Olimpíadas de 2016? Quais pautas a ONG propõe para haver uma preparação melhor? A gente propõe um caminho que começa agora e termina em 2022 de ter todas as crianças em todas as escolas do Brasil com educação física e atividade esportiva, dobrar a prática de esporte na população e construir esse Sistema Nacional de Esportes de maneira que ele garanta uma estrutura legal e de recursos para que o esporte aconteça nas várias condições. Quanto mais o Brasil avançar na disseminação da prática de esportes e na disseminação da cultura ativa, mais a população em geral vai ganhar em qualidade de vida.
Leia Manifesto dos Atletas por uma copa mais decente
APública:.Ana Moser lidera movimento de atletas
16 de ago. de 2012
Sob pressão por medalhas, COB tem meta "dura e factível" para 2016
Enquanto os britânicos acordaram nesta segunda-feira com a sensação do dever cumprido, depois de organizar uma Olimpíada impecável e com resultados acima do esperado no quadro de medalhas, os brasileiros começaram finalmente a viver a pressão total para não desapontar o mundo e repetir no Rio 2016 - dentro das devidas proporções - o sucesso de Londres 2012.
Até mesmo o presidente do Comitê Olímpico Internacional, Jacques Rogge, já avisou que "o desempenho do time da casa no quadro de medalhas é fundamental para o sucesso dos Jogos". O que significa que o Brasil terá muito trabalho a fazer nos próximos quatro anos. A meta estabelecida pelo Comitê Olímpico Brasileiro é bastante ambiciosa: ficar entre os primeiros na classificação geral no Rio 2016.
Em Londres, a décima posição foi ocupada pela Austrália, com 35 medalhas no total, sendo sete de ouro. O Brasil não conquistou nem a metade disso, ficando com 17 medalhas no total, incluindo três douradas. Mesmo assim, este foi o melhor resultado de todos os tempos (em números totais de pódios) para os atletas de verde e amarelo e superou a meta inicial dos dirigentes esportivos.
Já de malas prontas para voltar ao Brasil, o superintendente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Marcus Vinicius Freire, recebeu o Terra nesta manhã no hotel onde estava hospedado no centro da capital britânica. Para ele, o objetivo de colocar a delegação no top 10 em 2016 "é duro, mas factível". O dirigente avaliou o resultado do País em Londres e ainda comentou situações individuais que acabaram prejudicando o desempenho do País na classificação geral -, como o caso da saltadora Fernanda Murer, que "menosprezou a regra do jogo, mesmo tendo recebido tudo que precisava", segundo Freire.
Confira abaixo a avaliação e os projetos do COB para que o Brasil finalmente se torne uma potência olímpica quando sediar os próximos Jogos daqui a quatro anos.
Terra: Quais as lições que o Brasil tira do quadro de medalhas de 2012
Marcus Vinícius Freire: Vimos uma pulverização de conquistas ao redor do mundo. Até ontem pela manhã, 87 países ganharam medalhas em Londres. Além disso, houve uma diminuição das conquistas dos países que são potencias. Dos 12 primeiros, sete caíram, incluindo China e Estados Unidos. É uma pancada que não vinha acontecendo. E por fim ainda vimos uma especialização grande de países por modalidade, nas quais as confederações pegam uma duas medalhas e enfiam tudo ali, de foco e investimento. O Irã é um exemplo, que ganhou 12 medalhas só em levantamento de peso e luta livre, além do taekwondo.
Terra: Mas essa não é uma tendência, de concentrar esforços em poucas modalidades, que o COB pretende seguir, certo?
Freire: Não. Essa é uma avaliação macro do que ocorreu em Londres. Não é o nosso quadro. Culturalmente, precisamos continuar apoiando as modalidades coletivas, mesmo sendo mais caro. Sempre há aquela discussão sobre produtividade, mas sempre levamos por outro lado. Estamos saindo daqui com 17 medalhas, mas com 57 medalhistas (contando todos os vencedores em esportes por equipes como futebol e vôlei).
Terra: Mas ninguém faz a conta desse jeito...
Freire: Nós fazemos. Somos um país de esportes coletivos. Por isso, nossa tendência agora para 2016 é pegar as modalidades nas quais normalmente já ganhamos medalhas e ampliar as conquistas. Se hoje tivemos recorde de medalhas com quatro no judô e quatro no vôlei, de repente para o Rio a meta deles será cinco. No atletismo tivemos aproveitamento zero de 133 medalhas possíveis. Na natação são 96 medalhas. Conquistamos apenas duas. Por isso, os dois são pontos de atenção para nós porque temos histórico nesses esportes, eles têm patrocínio, têm federações fortes, por isso precisam de resultados.
Terra: O investimento no último ciclo foi consideravelmente maior, mas os resultados continuam pouco expressivos. Isso não mostra um erro no planejamento?
Freire: A gente confirma que a estratégia está correta quando vê três esportes que nunca ganharam nada em Jogos saindo daqui com medalhas para o País, como o boxe, o pentatlo moderno e a ginástica. Foram trabalhos que estavam dentro da nossa lista desde o começo e já conseguiram ganhar medalha agora, mesmo antes do Rio. A nossa meta é top 10 no total de medalhas. Se você olhar os países que estão nessa posição hoje, todos ganham em pelo menos 13 modalidades. Então, se nos mantivermos ganhando em oito, não vamos conseguir chegar.
Terra: O problema é que o investimento foi maior para 2012 e tivemos apenas duas medalhas a mais. Isso não é pouco?
Freire: Depende. Eu que sou economista te digo que é um crescimento de quase 20%. Se crescermos 30% na próxima chegaremos à meta do top 10.
Terra: Mas essa meta parece muito ambiciosa, se comparada ao objetivo desse ano...
Freire: Não é isso. Eu diria que as duas são metas realistas. As pessoas querem fazer a meta pensando que tudo sempre será 100%. O vôlei masculino mostrou isso, uma troca de tática do adversário mudou tudo. E isso não acontece só com o Brasil, é com todo mundo. É verdade que aqui os britânicos quase não falharam e tomara que isso aconteça no Brasil. Mas essa não é a regra. A Austrália foi uma tragédia na natação, por exemplo. Por isso, colocamos a meta para Londres em 15 medalhas.
Terra: Mas pela conta do COI, que leva em consideração o total de ouros, o Brasil ficou em 22º lugar, bem longe do top 10. Freire: Sim, mas o problema é que não se compra medalha no mercado. Alguns países fazem isso, naturalizando atletas. Mas esse não é o nosso caminho. E o dinheiro só vai render frutos ao longo dos anos. Não é apenas em um ciclo olímpico. Os que vão para 2016 já são um investimento de muito tempo.
Terra: As críticas quanto ao trabalho de base das confederações e o apoio aos atletas persistem. O que está sendo feito para mudar esse quadro?
Freire: A estrutura é constitucional e não temos como alterá-la. Mas, quando a meta é olímpica, o COB entra na conversa e nós já estamos fazendo mudanças. Um exemplo é a Yane Marques (bronze no pentatlo moderno). Ela é um trabalho 100% do COB. Nos juntamos com o Exército, que nos ajudou muito, e a confederação da modalidade aceitou isso.
E esse é um modelo que deu certo. Então pode ser que, em algumas modalidades, analisando junto com a confederação, entendamos que deixar o atleta dentro de um pacote olímpico seja melhor. Temos um trabalho semelhante ocorrendo em modalidades como canoagem e BMX, por exemplo. Muitas vezes teremos que fazer "a escolha de Sofia". Como no handebol. Adianta dispersar o investimento em dois, ou focar só no feminino, que já bateu na trave em duas olimpíadas? Ou seja, as mulheres já encostaram na elite, enquanto o masculino nem se classificou para os Jogos. Vamos sentar com as confederações e discutir isso, se vale dividir tempo e interesse ou focar no carro chefe.
Terra: Casos pontuais também atrapalharam o desempenho do Brasil no quadro de medalhas, como a saltadora Fabiana Murer e a Seleção masculina de futebol. Como você avalia esses casos?
Freire: No futebol, acho que as coisas acontecem desse jeito. Tomar um gol no primeiro minuto muda tudo mesmo. Foi um acaso e isso é normal. No caso da Fabiana, ela fez, disparado, a melhor preparação; nunca esteve tão bem, nunca teve tanto recurso. Acho que ela menosprezou uma regra do jogo. Foi só isso. Ela estava preparada, tínhamos psicólogos, tinha tudo. Só que ela correu um risco que não precisava ter corrido ao não partir para o salto. Mas isso também acontece. É uma atleta que fez um ciclo olímpico espetacular e chegou como favorita para medalha pelo trabalho dela e dos treinadores, mas acabou medindo mal o risco que tinha e acabou perdendo a oportunidade.
Terra: Você acredita então que o atleta brasileiro, no geral, não sofre mais de problemas psicológicos em competições como essa?
Freire: Acho que já foi o tempo disso. Tivemos sete psicólogos em Londres, além de todo o acompanhamento durante o quadriênio. Além do que, o COB está cheio de medalhistas olímpicos. Então a gente sabe o que eles estão passando e isso ajuda bastante no apoio.
Terra: E qual pode ser considerado o ponto alto do Brasil nessa Olimpíada?
Freire: O tricampeonato olímpico do José Roberto Guimarães é algo incrível. Além de somarmos agora mais seis bicampeões olímpicos a nossa lista. Sempre falo, somos um país de 200 milhões de pessoas, com apenas seis bicampeões até então. E damos quase nenhuma atenção para eles. Agora chegam mais seis com o bi do vôlei feminino. Então temos que comemorar bastante isso.
Até mesmo o presidente do Comitê Olímpico Internacional, Jacques Rogge, já avisou que "o desempenho do time da casa no quadro de medalhas é fundamental para o sucesso dos Jogos". O que significa que o Brasil terá muito trabalho a fazer nos próximos quatro anos. A meta estabelecida pelo Comitê Olímpico Brasileiro é bastante ambiciosa: ficar entre os primeiros na classificação geral no Rio 2016.
Em Londres, a décima posição foi ocupada pela Austrália, com 35 medalhas no total, sendo sete de ouro. O Brasil não conquistou nem a metade disso, ficando com 17 medalhas no total, incluindo três douradas. Mesmo assim, este foi o melhor resultado de todos os tempos (em números totais de pódios) para os atletas de verde e amarelo e superou a meta inicial dos dirigentes esportivos.
Já de malas prontas para voltar ao Brasil, o superintendente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Marcus Vinicius Freire, recebeu o Terra nesta manhã no hotel onde estava hospedado no centro da capital britânica. Para ele, o objetivo de colocar a delegação no top 10 em 2016 "é duro, mas factível". O dirigente avaliou o resultado do País em Londres e ainda comentou situações individuais que acabaram prejudicando o desempenho do País na classificação geral -, como o caso da saltadora Fernanda Murer, que "menosprezou a regra do jogo, mesmo tendo recebido tudo que precisava", segundo Freire.
Confira abaixo a avaliação e os projetos do COB para que o Brasil finalmente se torne uma potência olímpica quando sediar os próximos Jogos daqui a quatro anos.
Terra: Quais as lições que o Brasil tira do quadro de medalhas de 2012
Marcus Vinícius Freire: Vimos uma pulverização de conquistas ao redor do mundo. Até ontem pela manhã, 87 países ganharam medalhas em Londres. Além disso, houve uma diminuição das conquistas dos países que são potencias. Dos 12 primeiros, sete caíram, incluindo China e Estados Unidos. É uma pancada que não vinha acontecendo. E por fim ainda vimos uma especialização grande de países por modalidade, nas quais as confederações pegam uma duas medalhas e enfiam tudo ali, de foco e investimento. O Irã é um exemplo, que ganhou 12 medalhas só em levantamento de peso e luta livre, além do taekwondo.
Terra: Mas essa não é uma tendência, de concentrar esforços em poucas modalidades, que o COB pretende seguir, certo?
Freire: Não. Essa é uma avaliação macro do que ocorreu em Londres. Não é o nosso quadro. Culturalmente, precisamos continuar apoiando as modalidades coletivas, mesmo sendo mais caro. Sempre há aquela discussão sobre produtividade, mas sempre levamos por outro lado. Estamos saindo daqui com 17 medalhas, mas com 57 medalhistas (contando todos os vencedores em esportes por equipes como futebol e vôlei).
Terra: Mas ninguém faz a conta desse jeito...
Freire: Nós fazemos. Somos um país de esportes coletivos. Por isso, nossa tendência agora para 2016 é pegar as modalidades nas quais normalmente já ganhamos medalhas e ampliar as conquistas. Se hoje tivemos recorde de medalhas com quatro no judô e quatro no vôlei, de repente para o Rio a meta deles será cinco. No atletismo tivemos aproveitamento zero de 133 medalhas possíveis. Na natação são 96 medalhas. Conquistamos apenas duas. Por isso, os dois são pontos de atenção para nós porque temos histórico nesses esportes, eles têm patrocínio, têm federações fortes, por isso precisam de resultados.
Terra: O investimento no último ciclo foi consideravelmente maior, mas os resultados continuam pouco expressivos. Isso não mostra um erro no planejamento?
Freire: A gente confirma que a estratégia está correta quando vê três esportes que nunca ganharam nada em Jogos saindo daqui com medalhas para o País, como o boxe, o pentatlo moderno e a ginástica. Foram trabalhos que estavam dentro da nossa lista desde o começo e já conseguiram ganhar medalha agora, mesmo antes do Rio. A nossa meta é top 10 no total de medalhas. Se você olhar os países que estão nessa posição hoje, todos ganham em pelo menos 13 modalidades. Então, se nos mantivermos ganhando em oito, não vamos conseguir chegar.
Terra: O problema é que o investimento foi maior para 2012 e tivemos apenas duas medalhas a mais. Isso não é pouco?
Freire: Depende. Eu que sou economista te digo que é um crescimento de quase 20%. Se crescermos 30% na próxima chegaremos à meta do top 10.
Terra: Mas essa meta parece muito ambiciosa, se comparada ao objetivo desse ano...
Freire: Não é isso. Eu diria que as duas são metas realistas. As pessoas querem fazer a meta pensando que tudo sempre será 100%. O vôlei masculino mostrou isso, uma troca de tática do adversário mudou tudo. E isso não acontece só com o Brasil, é com todo mundo. É verdade que aqui os britânicos quase não falharam e tomara que isso aconteça no Brasil. Mas essa não é a regra. A Austrália foi uma tragédia na natação, por exemplo. Por isso, colocamos a meta para Londres em 15 medalhas.
Terra: Mas pela conta do COI, que leva em consideração o total de ouros, o Brasil ficou em 22º lugar, bem longe do top 10. Freire: Sim, mas o problema é que não se compra medalha no mercado. Alguns países fazem isso, naturalizando atletas. Mas esse não é o nosso caminho. E o dinheiro só vai render frutos ao longo dos anos. Não é apenas em um ciclo olímpico. Os que vão para 2016 já são um investimento de muito tempo.
Terra: As críticas quanto ao trabalho de base das confederações e o apoio aos atletas persistem. O que está sendo feito para mudar esse quadro?
Freire: A estrutura é constitucional e não temos como alterá-la. Mas, quando a meta é olímpica, o COB entra na conversa e nós já estamos fazendo mudanças. Um exemplo é a Yane Marques (bronze no pentatlo moderno). Ela é um trabalho 100% do COB. Nos juntamos com o Exército, que nos ajudou muito, e a confederação da modalidade aceitou isso.
E esse é um modelo que deu certo. Então pode ser que, em algumas modalidades, analisando junto com a confederação, entendamos que deixar o atleta dentro de um pacote olímpico seja melhor. Temos um trabalho semelhante ocorrendo em modalidades como canoagem e BMX, por exemplo. Muitas vezes teremos que fazer "a escolha de Sofia". Como no handebol. Adianta dispersar o investimento em dois, ou focar só no feminino, que já bateu na trave em duas olimpíadas? Ou seja, as mulheres já encostaram na elite, enquanto o masculino nem se classificou para os Jogos. Vamos sentar com as confederações e discutir isso, se vale dividir tempo e interesse ou focar no carro chefe.
Terra: Casos pontuais também atrapalharam o desempenho do Brasil no quadro de medalhas, como a saltadora Fabiana Murer e a Seleção masculina de futebol. Como você avalia esses casos?
Freire: No futebol, acho que as coisas acontecem desse jeito. Tomar um gol no primeiro minuto muda tudo mesmo. Foi um acaso e isso é normal. No caso da Fabiana, ela fez, disparado, a melhor preparação; nunca esteve tão bem, nunca teve tanto recurso. Acho que ela menosprezou uma regra do jogo. Foi só isso. Ela estava preparada, tínhamos psicólogos, tinha tudo. Só que ela correu um risco que não precisava ter corrido ao não partir para o salto. Mas isso também acontece. É uma atleta que fez um ciclo olímpico espetacular e chegou como favorita para medalha pelo trabalho dela e dos treinadores, mas acabou medindo mal o risco que tinha e acabou perdendo a oportunidade.
Terra: Você acredita então que o atleta brasileiro, no geral, não sofre mais de problemas psicológicos em competições como essa?
Freire: Acho que já foi o tempo disso. Tivemos sete psicólogos em Londres, além de todo o acompanhamento durante o quadriênio. Além do que, o COB está cheio de medalhistas olímpicos. Então a gente sabe o que eles estão passando e isso ajuda bastante no apoio.
Terra: E qual pode ser considerado o ponto alto do Brasil nessa Olimpíada?
Freire: O tricampeonato olímpico do José Roberto Guimarães é algo incrível. Além de somarmos agora mais seis bicampeões olímpicos a nossa lista. Sempre falo, somos um país de 200 milhões de pessoas, com apenas seis bicampeões até então. E damos quase nenhuma atenção para eles. Agora chegam mais seis com o bi do vôlei feminino. Então temos que comemorar bastante isso.
6 de jul. de 2012
Brasil perde da Polônia, fica fora das finais da Liga e tem pior resultado da Era Bernardinho
Aos poucos, a Polônia assume definitivamente o posto de principal algoz do Brasil no vôlei masculino. A equipe europeia, que já havia vencido a seleção verde-amarela em três dos quatro encontros entre os times na primeira fase da Liga Mundial, voltou a derrotar o Brasil nesta quinta-feira, de virada, por 3 sets a 2 (23-25, 25-23, 23-25, 25-17 e 15-11) e eliminou os brasileiros da competição.
A queda nas quartas de final deixou o Brasil em sua pior colocação de campeonato desde que Bernardinho assumiu o comando da equipe, em 2001, e justamente no último torneio preparatório para os Jogos Olímpicos de Londres. Até agora, o quarto lugar na Liga de 2008, também antes da Olimpíada de Pequim, era o recorde negativo do time com o comandante. O resultado ainda repete o que não acontecia desde a Liga de 1998, quando a seleção terminou na quinta posição.
Após a derrota de ontem para Cuba por 3 a 0, o Brasil, que já havia feito uma primeira fase bastante instável e se classificou apenas na condição de segundo melhor colocado, precisava obrigatoriamente vencer a Polônia nesta quinta para seguir na briga por uma vaga nas semifinais da Liga. Entretanto, com vários apagões ao longo da partida, os eneacampeões não resistiram ao ímpeto da nova potência europeia, que vai às semifinais e leva junto os cubanos mesmo com uma rodada de antecedência.
Para o jogo de hoje, Bernardinho fez duas mudanças em relação à equipe que perdeu para Cuba. Dante deu lugar ao capitão Giba e Sidão, possivelmente com dores, saiu para a entrada de Rodrigão. Bruninho, Leandro Vissotto, Lucão, Murilo e Escadinha completaram a equipe. As alterações, porém, surtiram pouco efeito, apesar da boa atuação de Rodrigão.
O equilíbrio visto entre as duas equipes nos três primeiros sets acabou na quarta parcial, depois de um incidente envolvendo Winiarski e Bruninho na rede. O polonês tentou uma bola de xeque e acabou acertando, com a mão, a cabeça do brasileiro. Os ânimos esquentaram, os atletas discutiram na rede, e o time da Polônia se aproveitou da instabilidade emocional do time verde-amarelo para disparar no placar e levar o jogo para o tie-break.
No set desempate, os poloneses mantiveram o bom rendimento e viram os jogadores do Brasil se acanharem cada vez mais em quadra. A Polônia fechou com 15-10 e sacramentou a eliminação brasileira.
Kurek foi o principal pontuador do jogo com 25 acertos. Leandro Vissotto, apesar de ser bloqueado várias vezes e de ter uma atuação irregular, foi quem mais colocou bolas no chão pelo Brasil: 16.
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