30 de ago de 2012

Volei Feminino_Memória_Ida do Volei_Entrevista

N.E.Ida, com que idade e em que clube você iniciou a prática do voleibol? Alguém te incentivou a praticar esse esporte ou você escolheu-o por vontade própria? Havia algum ídolo que você admirasse quando iniciou a carreira?
Ida:.Eu comecei com 10 anos no Clube Atlético Paulistano. As minhas irmãs todas jogavam vôlei no Paulistano, então eu sempre tive incentivo da família. Quando iniciei a carreira, não tinha ídolos, pois eu era pequena e já convivia no meio das pessoas do vôlei. Eu assistia muito aos jogos masculinos e gostava de ver o Moreno jogar e posso dizer que ele foi um atleta que admirei bastante essa época.
N.E. Antônio Carlos Moreno foi o primeiro grande ídolo do voleibol brasileiro. Jogou por 21 anos na seleção brasileira, num total de 366 jogos. Disputou sete sul-americanos, quatro Pan-Americanos, quatro mundiais e quatro Olimpíadas.
Quando foi sua primeira convocação para as seleções de base do Brasil? O que representou para você essa primeira participação em uma seleção brasileira? Que jogadoras estiveram com você nessa sua primeira convocação?
Ida:.A primeira seleção foi uma seleção brasileira infanto-juvenil em 1.980, o técnico era o Josenildo Carvalho. Eu era a mais nova de uma equipe onde estavam a Vera Mossa, Dulce Thompson, Flávia Figueiredo e Luíza Machado, mas quem teve continuidade na seleção por um bom tempo depois foi a Vera Mossa.
Nós jogamos um Sul-Americano aqui em São Paulo e a final foi contra o Peru e perdemos; o time do Peru já tinha a base que viria ser o time campeão no adulto, com a Cecília Tait, entre outras. Enfim, era um timaço.
N.E.Em 1981 você foi com a seleção de novas para amistosos pela Europa. Como foram esses amistosos? Você se recorda de alguma estrangeira nesses amistosos que te impressionou por suas atuações?
Ida:.Foi muito legal para mim, porque eu era muito mais nova e não tinha muito o que provar, porque ser a mais novinha; fui numa de curtir a viagem. Os jogos tinham um nível que eu nunca tinha jogado, mas todas as vezes que eu entrei, eu lembro que eu conseguia mostrar alguma coisa, não sei se era lance de sorte ou não, mas eu entrava para sacar e fazia dois, três pontos e eu achava isso o máximo. Eu não tinha aquela noção de onde eu queria chegar; as coisas foram acontecendo muito rápido para mim.
Tinha uma levantadora de Cuba, que não me recordo o nome. Ela era absurda, eu nunca vi Cuba com uma levantadora tão boa na equipe, tanto que Cuba jogava 5x1 nessa época, para se ter uma idéia, porque a mulher era fera, parecia a Irina jogando, levantava sempre saltando.
N.E.O Brasil passou a virada de 1.980 para 1.981 na Holanda, pois esses amistosos foram realizados em janeiro de 1.981. A equipe que foi era constituída das seguintes atletas: Dulce Thompson, Sandra Suruagy, Ida, Eliani Costa (Lica), Flavia Figueiredo, Cristina Rosa, Blenda Bartels, Regina Uchoa, Adriane Paulo Suely, Rita de Cássia Teixeira, Lenice Peluso e Marta Silva.
Cuba tem como forte característica em seu estilo de jogo até hoje, atuar no sistema 4x2 nas equipes femininas.
Irina Kirillova foi uma das maiores levantadoras da história. Atuou durante muitos anos na seleção da URSS, sendo campeã mundial e olímpica; naturalizou-se croata após a dissolução da ex URSS e jogou pela seleção da Croácia de 1.995 a 1999. A atleta atuou no Brasil na temporada 1.997/1998 na equipe do Mappin/Pinheiros, inclusive jogando com Ida.
N.E.Você foi campeã brasileira de clubes em 1982 pelo Paulistano com apenas 17 anos. Como foi ganhar um título brasileiro tão jovem? Conte-nos da final desse torneio, ganha pelo seu clube, mas tendo a Pirelli considerada como favorita.
Ida:.Nós sabíamos que podíamos ganhar. Tinha o favoritismo, porque o adversário era mais forte no papel do que nossa equipe; mais experiente, mas nessa época nós tínhamos um grande técnico que era o Josenildo e eu acabei sentindo um grande avanço técnico com a transição do técnico anterior para o ele, que mudou totalmente a equipe do Paulistano, principalmente na parte técnica. Muito da nossa vitória foi resultado do trabalho do Josenildo.
Foi muito legal ganhar esse título tão jovem. Como mencionei, as coisas foram acontecendo gradativamente na minha vida. Eu tinha 6 anos e já adorava vôlei, mas eu não tinha aquela coisa do ídolo, tipo um dia eu quero chegar ali; eu nunca pensei nisso. Cada passo que eu dava e eu conquistava algo a mais, eu achava legal e isso acabou se tornando normal para mim, depois as coisa foi se profissionalizando. Ganhamos o campeonato, foi lindo, conquistei mais um passo, mas não foi algo que eu achei espetacular.
N.E.:O time base da Pirelli era formado pela levantadora Maria Cecília Novella (Ciça) e na sua diagonal Fernanda Emerick, as pontas Vera Mossa e Adriani Paulo Suely e as centrais Verônica Sena e Rita de Cássia Teixeira.
O time que foi campeão brasileiro pelo Paulistano era formado pela seguintes atletas: Ivonete das Neves, Ida, Sílvia Montanarini, Ana Lúcia de Camargo, Irena Hunka, Roseli Timm, Claudia Trabulsi, Joercy Buccieri, Adriana Germer de Lima, Anik das Neves, Maria Amélia Lima e Rosana Naggar.
Em 1983 você foi cortada da equipe brasileira que participou dos jogos Pan-Americanos de Caracas e do Sul-Americano em São Paulo. Você estava ciente que não era seu momento na seleção adulta ou você acredita que não foi justo o seu corte?
Ida:.Eu estava super preparada, mas sabia que seria cortada e isso não me chateou de maneira alguma, pois sabia que não era a minha hora de estar na seleção principal. Eu não possuía a experiência e a bagagem necessária para isso ainda; eu sempre tive os pés no chão de onde podia chegar e o momento que poderia chegar.
N.E.Quais motivos a levaram a transferir-se para a equipe do Flamengo na temporada de 1984? Por que a equipe não conseguiu alcançar a final do brasileiro daquela temporada, visto que no elenco havia jogadoras como Regina Vilella, Jacqueline Silva e Regina Uchoa?
Ida:.Fui para o Rio de Janeiro, porque eu estava há muito tempo no Paulistano e eu queria mudar de clube. Fizeram uma proposta muito boa pra mim, irrecusável. Foi a primeira vez que montaram uma equipe profissional, estava na transição do amadorismo para o profissionalismo. Meu pai ficou chateado, porque é sócio do Paulistano e minha família inteira jogou lá, mas a proposta como citei era irrecusável; era minha vida e eu não podia ficar lá devido esses outros fatores.
Foi uma temporada conturbada lá. A Jacqueline teve alguns problemas pessoais, foi a primeira vez que eu vim para o Rio de Janeiro. Foi o primeiro ano que se montou uma equipe que cada uma veio de um lugar, então é muito difícil se ganhar um campeonato só porque você tem nomes, se você não tem um conjunto; é difícil montar uma equipe trazendo uma de cada equipe e dizer “Vamos ganhar o campeonato”, pois não ganha mesmo.
N.E.A equipe do Flamengo/Limão Brahma era dirigida pelo técnico Radamés Lattari Filho e além de Ida e das atletas citadas acima, tinha no elenco as seguintes jogadoras: Roseli Timm, Ellen Costa, Cristina Rosa, Ana Lúcia Vieira Mesquita, Renata Palmier, Viviane Bittar, Andréa Cordeiro e Denise Mattioli.
N.E.O que você achou da participação da Seleção Brasileira nos Jogos Olímpicos de Los Angeles? A equipe poderia conseguir um resultado melhor? Recorda-se de algum momento marcante daquele torneio?
Ida:.Acho que poderíamos ir mais longe, mas eu acho que tudo tem sua época. Eu passei por três gerações e era outro método, outro tipo de treinamento, eram outras pessoas; o voleibol estava se tornando profissional.
Eu me lembro muito do jogo contra os Estados Unidos e acredito que o Brasil inteiro lembra que perdemos de virada e isso desmotivou muito o grupo; eu me lembro que a Jacqueline mesmo depois desse jogo sumiu, depois que perdemos essa partida, todo mundo debandou, ficou triste. Eu acho que tudo tem sua fase; aquela época se nós ganhássemos dos Estados Unidos, iríamos ficar bem posicionadas na tabela do campeonato e seria a melhor participação da história.
Acredito que tudo isso foi uma bagagem para chegar a algum lugar; nossa equipe não era uma equipe com boas colocações em Olimpíadas, tanto que foi a segunda olimpíada que a equipe brasileira participou.
N.E.:O Brasil estreou em Los Angeles com uma derrota para a China por 3 sets a 0. No segundo jogo, o time vencia os EUA por 2x0, mas permitiu a reação das adversárias, que venceram por 3 sets a 2 (12x15, 10x15, 15x05, 15x05 e 15x12). O Brasil terminou a competição com o sétimo lugar, com apenas uma vitória, sobre o Canadá, na última partida.
O grupo que foi aos Jogos Olímpicos de Los Angeles era composto pelas seguintes atletas: Jacqueline Silva, Regina Uchoa, Heloísa Roese, Eliane Costa (Lica), Fernanda Emerick, Isabel Salgado, Ana Richa, Mônica Caetano, Ana Margarida Álvares (Ida), Sandra Suruagy, Vera Mossa e Luiza Machado, sendo dirigidas por Ênio Figueiredo e Jorge de Barros (Jorjão).
N.E.Como foi sua passagem pela Lufkin/Sorocaba e por que a equipe não conseguiu alcançar grandes resultados, visto que tinha um grande elenco (Cristina Rosa, Blenda Bartels, Regina Uchoa, entre outras)?
Ida:.Esse ano foi muito complicado porque as seleções se concentraram durante muito tempo. Foi montado o time e eu, por exemplo, só me apresentei em novembro. O resultado foi super admissível; foi aquela mesma história do Flamengo, juntou todo mundo ali, treinamos um mês e fomos para as finais do Brasileiro.
N.E.Como foi o Mundial Juvenil de 1985, que o Brasil conseguiu alcançar a quarta posição? O que faltou para a equipe alcançar o pódio?
Ida:.Eu acho que poderia ir mais longe, mas uma mais vez eu digo, tudo é experiência daquilo que se passa, faz parte para o amadurecimento de uma equipe, de uma geração. Era uma geração boa, mas depois desse campeonato poucas subiram para a seleção adulta.
N.E.:O Brasil participou desse campeonato com a seguinte equipe: Ana Richa, Ana Volponi, Tina, Ida, Denise Souza e Ana Lúcia de Camargo. Além de Cora Barreira, Ana Paula de Tassis Pisoler, Sandra Izabel da Fonseca, Ana Moser, Adriana Samuel e Maria Patrícia Marques Santos. A seleção terminou com o quarto lugar na competição, que teve Cuba como campeã. Mireya Luis foi a MVP.
O Brasil participou da Copa do Mundo de 1985 por convite, visto que não foi campeão sul americano aquele ano. A sexta colocação foi o máximo que a equipe poderia realmente alcançar naquele torneio?
Era o começo de uma nova geração (base do Mundial Juvenil de 1.985) foi normal o resultado e acredito que fomos até bem.
N.E.:Equipe brasileira na competição: Ivonete Neves, Regina Uchoa, Eliani Costa (Lica), Heloísa Roese, Vânia Mello, Ana Lúcia de Camargo, Ana Richa, Maria Patrícia Marques, Tina, Ida, Sandra Isabel da Fonseca e Roseli Timm.
N.E.Na temporada 1986 você transferiu-se para a equipe da Transbrasil e jogou ao lado de Ana Moser, Cilene, entre outras, equipe essa dirigida pelo Inaldo Manta. Como foi sua passagem pela equipe e como era a estrutura da equipe de uma maneira geral? O que faltou para a equipe ser campeã brasileira, visto que foi tricampeã paulista?
Ida:.A Transbrasil tinha sede no Pinheiros, era uma estrutura ótima. Era o começo de um trabalho, juntaram as atletas, o Inaldo era técnico do Minas e foi a primeira vez que ele veio para São Paulo. Mais uma vez, juntar pessoas uma de cada lugar; o início de um trabalho e que gerou frutos depois na equipe da Sadia. Ganhávamos o Campeonato Paulista, porque não tínhamos frente.
N.E.:Os únicos adversários que tinham equipes para derrotar a Transbrasil no Paulista aquela época eram o Pão de Açúcar e a Pirelli, mas não impediram que a equipe fosse tricampeã paulista, ganhando o título de 1.985, 1.986 e 1.987.
Estiveram presentes na equipe da Transbrasil nas temporadas 1.986 e 1987, além de Ida, as seguintes atletas: Cilene Rocha, Ana Moser, Maria Auxiliadora (Dora) Castanheira, Maria Alice Santos, Lenice Peluso, entre outras.
Foi uma surpresa para o Brasil o 5º lugar no Mundial de 1986, visto que a equipe era extremamente jovem, com muitas atletas recém saídas da seleção juvenil? A vitória do Brasil sobre a URSS na disputa do 5º lugar foi mérito da equipe ou a adversária estava muito desfalcada?
Ida:.Eu não me recordo muito bem desse time da URSS. Eu lembro que o grande desafio aí, era ganharmos do Peru e perdemos, mas mesmo assim ficamos em quinto lugar. Foi considerada uma boa posição, mas eu lembro que o Jorjão ficou um pouco decepcionado; ele queria mais. Era uma fase de transição de uma geração juvenil para a adulta, era um misto da geração que tinha a Isabel, Regina Uchoa e a seleção juvenil que estava subindo. Então eu acho que a equipe foi muito bem.
N.E.O Brasil foi com uma equipe mais jovem para esse torneio devido boicote de várias atletas, sendo que as mais experientes do grupo eram Izabel, Regina Uchoa e Vera Mossa. As demais atletas que estiveram presente na competição foram Ana Cláudia Ramos, Roseli Ana Timm, Eliani Miranda da Costa (Lica), Sandra Suruagy, Vânia Mello e quatro atletas que estavam no grupo que foi ao Mundial Juvenil de 1985: Ida, Denise Souza, Ana Lúcia Camargo e Adriana Samuel. Ficaram de fora do grupo atletas experientes como Jacqueline Silva, Ivonete Neves de Souza, Mônica Caetano, Luiza Machado, Helga Sasso, Dora Castanheira, entre outras.
O Brasil caiu em uma chave forte no torneio, com Cuba, Peru e Alemanha Ocidental. Perdeu das cubanas na estréia por 3x0, na segunda rodada sofreram uma derrota de 3x1 para as peruanas e encerraram a primeira fase com uma vitória de 3x1 diante das alemãs.
Na segunda fase caíram no grupo E, que contou com as cubanas, peruanas, além de búlgaras, sul-coreanas e tchecoslovacas. As meninas derrotaram a Bulgária por 3x2 e as seleções da Tchecoslováquia e da Coréia do Sul por 3x0. As equipes carregavam os resultados da primeira fase e somente as duas primeiras da chave E e F iriam para as semifinais e o Brasil ficou em terceiro, tendo que disputar o quinto lugar. A equipe ganhou do Japão por 3x1 e surpreendeu ao derrotar a extinta URSS por 3x0, com parciais de 15/5, 15/8 e 15/10 e vale destacar que a seleção soviética estava desfalcada somente de Irina Smirnova e Tatiana Sidorenko.
N.E.Por que você esteve afastada da seleção nas temporadas de 1987 e 1988? Você ficou chateada de ficar fora da equipe que foi aos Jogos de Seul?
Ida:.Porque no começo de 1.987 eu estava grávida da minha filha mais velha e ela nasceu em setembro desse ano, aí eu não fui convocada por isso. Quando eu fiquei grávida sabia que corria o risco de não ir para Seul, mas eu achava que eu podia ser convocada e lógico que eu fiquei triste.
N.E.Foi por falhas do Brasil ou mérito das peruanas, a perda do título Sul Americano em 1989, já que as andinas não contavam mais com Gina Torrealva e Cecília Tait?
Ida:.Eu acho que tínhamos condições de ganhar, foi uma falha nossa. Não tinha problema nenhum, mas nós estávamos numa fase muito conturbada. Foi uma fase tumultuada; uma parte da seleção juvenil entrou na seleção adulta, saiu a Jackie, volta e meia eles trocavam as atletas nos campeonatos; tinha a Ana Cláudia, que não era da minha geração nem da outra; não tinha um padrão de equipe.
N.E.:As titulares do Brasil neste Campeonato Sul Americano foram: Ana Richa, Isabel Salgado, Ana Cláudia Ramos, Ana Moser, Ida e Márcia Fu. As reservas eram: Fernanda Venturini, Vera Mossa, Ana Lúcia de Camargo, Ana Maria Volponi, Eliani Oliveira (Lica) e Kerly Paiva.
O Peru jogou com Rosa Garcia, Cenaida Uribe, Denise Fajardo, Natália Málaga, Gabriela Perez e Sônia Heredia, além Rocio Serna, Margarita Delgado, Jéssica Tejada, Janet Vasconzuelo, Miriam Gallardo e Sonia Ayaucán.
Como era sua relação com as peruanas? Os confrontos com a equipe podiam ser comparados com os de Cuba na década de 1990?
Ida:.Tinha bastante provocação e acredito que era comparável com a rivalidade que se teve depois com Cuba.
Você esteve presente em três temporadas na equipe da Sadia que ganhou todos os títulos possíveis durante sua existência. Qual era o segredo da equipe para manter-se tanto tempo no topo? De todos os títulos conquistados naquele clube, você destaca algum em especial?
Eu acho que todos os campeonatos marcaram. O campeonato mundial interclubes foi muito legal, o primeiro título da Liga Nacional, que foi uma conquista muito dura, depois tudo se tornou mais fácil. Eu acho que o grande segredo era que nós gostávamos de ganhar, o Inaldo falava muito isso no começo. Nós tínhamos muito apoio da empresa e isso fazia com que ninguém quisesse sair de lá, fazíamos as coisas que tinham que ser feitas, enfim era muito esquematizado.
N.E.:O time da Sadia que foi campeã mundial interclubes em 1991 era constituído pelas seguintes atletas: Fernanda Venturini, Ana Flávia Sanglard, Márcia Fu, Ida, Ana Volponi e Ana Moser. As reservas foram: Maria Alice Santos, Cilene, Ana Néri Klock, Sandra Isabel Fonseca, Stela Santos e Fátima Santos. Ana Flávia e Fátima, que estavam se transferindo para o voleibol italiano, foram emprestadas para esse torneio. Com Inaldo na seleção brasileira, o técnico foi Mauro Grasso.
Em 1.990 houve a disputa dos Jogos da Amizade e o Brasil fez boas apresentações perante grandes equipes e na disputa do bronze teve uma vitória inesquecível e de virada contra o Peru, equipe esta que o Brasil não vencia há nove anos. O que te marcou em especial aquela partida e a conquista da medalha de bronze?
Ida:.Foi o começo de um novo trabalho comandado pelo Inaldo e havia um bom entrosamento da equipe, pois a sua base era constituída por atletas que jogavam na equipe da Sadia. Essa medalha foi um resultado mais que normal, já era a hora de ganharmos do Peru, pois possuíamos uma equipe superior à delas.
N.E.:Inaldo levou para os jogos da Amizade a seguinte equipe: Fernanda Venturini, Ana Flávia, Tina, Ida, Ana Moser e Márcia Fu. No banco estavam Ana Richa, Ana Volponi, Fátima Santos, Kerly Paiva, Denise Souza e Cilene.
O Brasil chegava embalado para disputar o Mundial na China, depois da grande campanha nos Jogos da Amizade, porém não fez um bom torneio. Algum motivo explica a má campanha brasileira?
Ida:.Houve um erro de planejamento. Fomos para a China muito antes do torneio, algo em torno de 20 dias e com isso alimentamo-nos mal e quando se iniciou o torneio estávamos muito cansadas e isso acabou prejudicando. Foi um dos motivos que mais me marcou com relação a questão do mau desempenho, mas não que esse possa ser considerado o motivo principal.
N.E.:Nos jogos Pan-Americanos de Havana em 1991, o Brasil conseguiu chegar à uma inédita final, mas foi derrotado pela poderosa equipe cubana. O Brasil alcançou a posição que realmente poderia alcançar ou houve algum fator que impediu a conquista do título? Houve provocação por parte das cubanas na partida final?
Ida:.Lutamos muito, mas a geração de Cuba era imbatível. Foi a construção de uma nova geração, porém o que atrapalhou aquela equipe naquele momento era o imenso respeito que tínhamos com elas; éramos muito “amiguinhas” e isso atrapalhava. Devido esse vínculo de amizade a provocação não era tão intensa, ela existia, mas não chegava a ser como foi em meados da década de 90.
N.E.:O técnico Wadson Lima assumiu a seleção em 1.991 devido o suicídio do então técnico Inaldo Manta e levou para Havana a seguinte equipe: Fernanda Venturini, Ana Flávia Sanglard, Tina, Ida, Cilene, Ana Moser, Fofão, Kerly Paiva, Ana Maria Volponi, Ricarda Lima, Adriana Samuel e Silvana Kühl.
Uma passagem da final merece ser citada. Em um dos momentos da partida, Ida marcou um belo ponto de bloqueio em cima da excepcional Mireya Luis, com a bola voltando nos pés da cubana. Não acostumada a ser parada por nenhuma bloqueadora, Mireya se mostrou surpresa e seguiu cabisbaixa para o jogo.
Ida:.Como foi a conquista do Sul-Americano dento do Ibirapuera em cima do Peru, depois de dez anos sem esse título?
Bem, aquela conquista pode ter sido marcante para o público que acompanha e torce para o voleibol, porém para nós foi normal, digamos que uma obrigação, pois o Peru já estava mais fraco tecnicamente e a história no momento não era mais brigar com o Peru e sim com outras equipes superiores.
N.E.:O Brasil foi campeão sul americano, com a direção do Wadson Lima com a seguinte equipe: Fernanda Venturini, Ana Flávia, Ida, Tina, Cilene, Ana Moser, Fofão, Kerly, Ana Lúcia de Camargo, Hilma, Leila e Adriana Samuel.
Quais motivos levaram o Brasil a ter uma má campanha na Copa do Mundo de 1991, ficando somente na oitava colocação?
Ida:.A fase do Wadson foi muito tumultuada, ainda mais com o suicídio do Inaldo, que algumas atletas eram muito apegadas e isso acabava sendo refletido nos jogos; não havia ordem na casa. O Wadson tinha uma falha, queria tratar o time adulto como se fosse juvenil; queria ser “paizão” e ficava passando a mão na cabeça das meninas.
N.E.:O Brasil não teve sorte no sorteio das chaves da Copa do Mundo e caiu em um grupo forte, o B que tinha as seleções dos Estados Unidos, China, Cuba, Alemanha e Quênia. Estreou no torneio com derrota para os Estados por 3x2, na seqüência venceu as alemãs por 3x0 e obteve mais dois resultados negativos: derrota de 3x0 para as chinesas e de 3x2 para as cubanas e encerrou a primeira fase com vitória sobre as quenianas por 3x0. Na disputa de 7º lugar, o Brasil derrotou por 3x0 as seleções da Espanha e Canadá e perdeu para as japonesas por 3x1, colocando várias reservas em quadra.
A equipe que foi ao torneio é praticamente a mesma que foi campeã Sul-Americana meses antes, a única mudança foi a entrada da vice-campeã mundial juvenil Juliana Guimarães no lugar de Leila, que estava contundida.
N.E.:Qual foi a sua reação ao saber do suicídio do Inaldo?
Ida:.Eu tinha um atrito com o Inaldo, mas independente disso, acredito que seu suicídio mexeu com todo mundo. Ele era super competente, porém assim como o Wadson, o seu maior defeito era o paternalismo e isso não dava certo, pois causava problemas na equipe.
N.E.:Por que você resolveu atuar em equipes menores nas temporadas 1991/1992 e 1992/1993 (Botafogo e Translitoral/Guarujá), já que havia grandes equipes no mercado como a Colgate, Rio Forte e L’acqua Di Fiori/Minas?
Ida:.Surgiu o ranqueamento das atletas e isso acabou tornando-se um problema pra mim, pois eu possuía uma pontuação alta e aquela época as ponteiras eram mais valorizadas no mercado que as centrais.
Primeiramente eu atuei no Botafogo, onde disputamos a seletiva para a Liga Nacional e não nos classificamos. Tive problemas de salários atrasados, que não foram pagos até hoje.
Após a saída do Botafogo fui contratada pela equipe da Translitoral/Guarujá, que era dirigida pelo Ênio Figueiredo. Foram duas temporadas de descanso, pois a equipe não tinha grandes atletas e com isso não havia muitas cobranças. Profissionalmente não foi bom, porque eu deixei de estar participando de uma final da Liga Nacional, porém pessoalmente foi bom.
Morávamos todas juntas em um prédio, em uma cidade pequena como o Guarujá e pude descansar um pouco, mas a equipe fez uma boa campanha, ficando em 5º lugar na disputa da Liga Nacional.
N.E.: A equipe do Botafogo que disputou a seletiva da Liga Nacional era constituída pelas seguintes atletas: Ida, Regina Vilella, Roseli Timm, Denise Souza, Maria Patrícia Marques Santos, Bernardete Gonçalves, Ricarda Lima, Ellen Costa, Ingrid Gomes e Maria Fernanda Mascigrande (Fefê). Já na Translitoral/Guarujá (precursora do BCN), Ida jogou duas temporadas e atuou ao lado de Márcia Begiato, Andréa Teixeira, Rosilene Silva (Rorô), Dóris Maehler, Adriana Fuchs, Maria Auxiliadora (Dora) Castanheira, Ana Richa, Adriana Bento, Miriam Volkweis, Adriane Paulo Suely, a peruana Natália Málaga, dentre outras.
Barcelona
A preparação para os Jogos Olímpicos de Barcelona foi diferenciada, já que a equipe alcançou um grande resultado, que foi o 4º lugar? Como foi ganhar da China a primeira vez em toda a história? Qual foi o momento mais marcante daquela competição para você?
Ida:.Foi um trabalho legal, estávamos bem preparadas. Na época, a mídia e todos em geral falavam que tínhamos mais chances de medalha que o time masculino. Com relação de ganhar da China não foi algo tão surpreendente, pois vínhamos fazendo jogos equilibrados com elas há certo tempo já.
O que me marcou não foi um jogo em si, mas sim saber que seria a primeira Olimpíada que eu teria compromisso com bons resultados e a falta de experiência e maturidade me preocupava e isso acabou atrapalhando.
N.E.:A China não vivia um bom momento, tanto que além da derrota do Brasil, sofreu derrotas também para as equipes da Holanda e de Cuba e ficou na sétima e penúltima colocação do torneio.
O Brasil disputou esse torneio com a seguinte formação titular: Fernanda Venturini, Márcia Fu, Hilma, Ana Moser, Ana Flávia e Ida. No banco estavam: Fofão, Leila, Ana Paula, Tina, Cilene e Ana Lúcia de Camargo.
A temporada 1993 começou com grandes resultados como o vice-campeonato da BCV Cup e o quarto lugar no Grand Prix, porém a temporada terminou com um resultado inesperado, que foi o vice-campeonato Sul-Americano. Você acha que o boicote de atletas como Ana Moser e Cilene foram determinantes para isso ou havia mais fatores envolvidos nisso?
Ida:.Ana Moser, Tina, Cilene e Patrícia Cocco realmente pediram dispensa devido a não adaptação do trabalho com o Wadson Lima, e com isso aumentou ainda mais o tumulto que já ocorria dentro da seleção há um bom tempo.
Algumas atletas sentiam falta do Inaldo e outras que foram aos Mundiais Juvenis de 89 e 91 com o Wadson tinham grande apego com ele e isso gerava rixas que eram trazidas para dentro da quadra.
N.E.:O Brasil perdeu a final do Campeonato Sul-Americano para a equipe peruana em Cuzco e estavam disputando o torneio as seguintes atletas: Fernanda Venturini, Filó, Márcia Fu, Hilma, Ida, Ana Paula, Fofão, Andréa Moraes, Ana Paula Lima (Popó), Ana Flávia, Leila e Virna.
Como foi a sua passagem pelo BCN/Guarujá? A equipe tinha um elenco muito forte, mas alcançou dois vice-campeonatos. Houve motivos extra-quadra que influenciaram na perca dos títulos?
Ida:.Foi legal, pois eu já trabalhava com o Ênio Figueiredo duas temporadas no Guarujá. É complicado analisar somente os motivos de termos perdido, será que a equipe que venceu o campeonato não teve seus méritos? Na temporada 93/94, por exemplo, o título foi decidido nos detalhes, pois a disputa foi até a 5ª partida.
N.E.:Na temporada 93/94, Ida jogou ao lado de Kátia Caldeira, Isabel Salgado, Ana Cláudia Ramos, Roseli Timm, Analirdes Santana, Virna, Sandra Suruagy, Sabrina Bado (Kika), Renata Paiva, Eliana dos Santos (Bobô) . e perderam o playoff final para a Nossa Caixa/Recra.
Na temporada 95/96, quando retornou do Japão, o BCN começou a ser dirigido por Cláudio Pinheiro e Ida jogou ao lado das seguintes atletas: Rosa Garcia, Leila, Fernanda Doval, Hilma, Ana Flávia, Kátia Caldeira, Arlene, Roseli Melo, Letícia Fonseca, Sabrina Bado, Michele Behling e Flúvia.
Qual foi a mudança que você sentiu com a chegada do Bernardinho no comando da seleção?
Ida:.Trabalhávamos muito. Ele cobrava muito tantos nos jogos como nos treinos; nos treinos a cobrança era até maior, pois ele não queria que houvesse erros, enfim, ele buscava a perfeição.
Com ele aprendemos a nos cobrar e a lidar com as cobranças. Não havia mais aquele lance de passar a mão na cabeça. Se ele marcasse um treino às 7 horas da manhã, era aquele horário e ponto final; acabou o paternalismo que existia na época do Inaldo e do Wadson e com isso ele construiu um espírito vencedor na equipe.
N.E.:.Qual foi a sensação de ganhar de Cuba a primeira vez na história nas finais do Grand Prix de 1994 e alcançar o título do torneio; o primeiro título de grande expressão para voleibol brasileiro?
Ida:.Foi muito emocionante. Me recordo que o Bernardinho nos falou antes da partida que não queria que nós conversássemos e nem tivéssemos intimidades com as cubanas; que parássemos com o lance de sermos “amiguinhas” , pois dentro de quadra elas esqueciam isso e nós tínhamos que fazer o mesmo.
Um lance que me marcou durante aquela partida foi que combinamos com o Bernardinho algumas mudanças táticas. Havia aquele lance de dizer: “Ah, a Ida é baixa para bloquear no meio” e então em certas passagens da rede eu fiz a posição de ponta e a Ana Moser fez o meio para deixar o bloqueio mais alto, mas isso não foi uma determinação do Bernardinho antes do jogo, nós decidimos isso em comum acordo com ele no decorrer da partida; não foi previsto antes.
N.E.:.O Brasil fez uma temporada excelente: ganhou o torneio de Bremen na Alemanha, a Beck’s Cup, a BCV Cup e o Grand Prix, mas acabou fazendo uma final de Mundial muito abaixo do esperado. Qual (is) foi(ram) o(s) motivo(s) para a má apresentação do Brasil na final?
Então, após o jogo da fase final do Grand Prix, as cubanas ficaram furiosas e nos disseram: “Aqui vocês ganharam, mas no Brasil quem ganha somos nós” e elas ainda ficaram sabendo do lance do Bernardinho proibir de nós falarmos com elas e isso deixou elas ainda mais atiçadas.
Ida:.Nós não jogamos mal a final, foi Cuba que não nos deixou jogar. Cuba tinha a força física e a alta estatura, já o Brasil era uma equipe muito técnica e de muita criatividade. As cubanas têm como estilo a provocação. Uma vez provocadas, elas ficam com mais gana de vencer e partem com tudo, e os episódios ocorridos no Grand Prix fizeram com elas tivessem uma atuação “acima do normal”. Jogadoras que bloqueavam a 2,90 m estavam bloqueando acima de 3 me não conseguimos ultrapassar o bloqueio. Cuba fez uma partida perfeita e não nos deixou jogar.
N.E.:O Brasil foi vice-campeão mundial em 1994 com a seguinte equipe: Fernanda Venturini, Márcia Fu, Ida, Ana Paula, Hilma, Ana Moser, Fofão, Ana Flávia, Edna, Janina, Estefânia e Virna. Na final a equipe perde de Cuba de 3x0, com parciais de 15/2, 15/10 e 15/5.
Você atuou uma temporada no voleibol japonês. Qual (is) a(s) diferença(s) que você pode notar daquele campeonato para a Superliga do Brasil?
Ida:.Na minha equipe eu joguei ao lado da russa Tatiana Menshova e como sou uma atleta veloz, acabei me adaptando facilmente ao estilo de jogo da liga japonesa, O público era bom, porém não como aqui no Brasil e os treinos eram de maior duração que no Brasil, porém menos puxados.
N.E.:Em 1996, você participou da BCV Cup e do maior torneio do Brasil naquela temporada: os Jogos Olímpicos de Atlanta. O Brasil fez uma primeira fase impecável e não conseguiu obter a almejada medalha de ouro. Você acredita que o desfalque da Hilma foi fator decisivo para isso ou foram outros fatores que determinaram a derrota nas semifinais?
Ida:.Bem, eu não acredito que a ausência da Hilma tenha sido fundamental para a derrota. Pode-se dizer que foi um lance de azar, pois nós tínhamos certeza que pegaríamos Cuba na final, pelos possíveis cruzamentos dos grupos nas quartas de final e semifinal e estávamos esperando lutar com Cuba com a medalha de prata em mãos já e com isso estaríamos jogando mais soltas, mas como essa partida ocorreu na semifinal, houve muita pressão e não soubemos lidar com isso.
Mas fez falta, sim.
A Virna conseguiu substituí-la à altura, mas a presença da Hilma daria mais opções no banco, por exemplo. Ela era uma jogadora que podia jogar tanto na ponta quanto na saída e até fazer uma passagem pelo meio, se fosse necessário. Eu sempre digo que aquele time de Atlanta era formado por doze jogadoras, todas prontas para jogar. Algumas seleções que têm apenas nove, dez jogadoras, as outras são um investimento para o futuro. Foi o que aconteceu como em Los Angeles, por exemplo. E a gente tem que ter consciência disso.
N.E.:A equipe medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Atlanta era composta pelas seguintes atletas: Fernanda Venturini, Márcia Fu, Ana Flávia, Ana Paula, Hilma, Ana Moser, Fofão, Leila, Ida, Sandra Suruagy, Filó e Virna.
Como você encarou a provocação das cubanas e todos os incidentes ocorridos após a semifinal?
Ida:.Acho que as únicas prejudicadas com tudo aquilo foram nós mesmas. Inclusive antes do jogo a gente combinou que não entraríamos na provocação delas e, infelizmente, não conseguimos cumprir. Foi uma besteira. Elas tiraram nossa concentração e ganharam o jogo ali. Penso que isso é uma coisa que não leva a nada, ainda mais num esporte onde existe uma rede no meio. Se houvesse contato físico, os nervos até poderiam se exaltar um pouco mais, mas isso não acontece no vôlei.
Você entrou muito bem na partida contra a Rússia, que deu ao Brasil a medalha de bronze. Com você em quadra o resultado da semifinal poderia ter sido outro?
Ida:.De maneira nenhuma. Nós tínhamos uma equipe. Que o Bernardo até poderia ter tentado mexer um pouco mais no time, até poderia. Inclusive porque a gente fica no banco doida pra jogar, mas foi uma opção dele. No jogo contra a Rússia não foi um mérito exclusivo do banco o time ter virado.
As meninas que saíram estavam arrasadas pela derrota e pela confusão e a gente estava babando pra jogar, acabou dando certo. Não houve mérito nem demérito de ninguém em especial. Como eu disse antes, aquele grupo não tinha apenas seis titulares, era um grupo de 12 jogadoras, muito entrosadas com a comissão técnica.
N.E.:.Após os Jogos Olímpicos de Atlanta, você decidiu ir jogar na praia. Por que você atuou pouco tempo e retornou as quadras?
Ida:.Fiquei pouco tempo na praia, porque teria que morar no Rio de Janeiro e eu não queria morar lá e o voleibol de praia em São Paulo não tem quase incentivo.
Na minha primeira passagem pela praia joguei com a Kika (Sabrina Bado) o Circuito Banco do Brasil e com a Gerusa e a Adriana Bento partidas de menor expressão. Depois que encerrei a carreira definitivamente nas quadras em 2001, ainda joguei com a Renata e a Jacqueline Silva.
N.E.:.Também após as Olimpíadas, foi para as bancas a Playboy com você na capa. Como surgiu o convite para você posar nua?
Ida:.Foi através de um amigo, que veio falar comigo sobre o assunto e eu fiquei interessada. Já havia um contato entre a revista e eu desde dezembro de 95.
N.E.:Porque as fotos foram publicadas somente depois das Olimpíadas?
IdaEu propus para que a revista saísse apenas depois dos Jogos. Sabia que se ela fosse publicada durante as Olimpíadas, iram falar muito. Quando eu fui conversar com o Bernardo sobre o assunto, ele falou a mesma coisa. Foi uma coisa minha e dele. Nunca foi minha intenção me aproveitar das Olimpíadas para me promover.
N.E.:Em 97 você se despediu da seleção com o bronze na Copa dos Campeões. Você já sentia que seriam seus últimos jogos com a camisa do Brasil? Ficou alguma frustração por não ter vencido seu último torneio?
Ida:.O Bernardo meio que juntou as jogadoras para essa Copa em cima da hora, foi tudo muito tumultuado. Ana Moser e eu, por exemplo, só nos juntamos ao grupo no aeroporto. Queria muito participar porque já tinha decidido parar, então sabia que seria minha última oportunidade jogando pela seleção. Claro que se o Brasil tivesse vencido eu teria ficado feliz, mas sabia que seria muito difícil, até pelo time ter se juntado na última hora. Mas só por estar ali eu já estava muito feliz, jogando cada jogo como se fosse o último.
N.E.:Você esteve presente na equipe do Mappin/Pinheiros na temporada 1997/1.998, equipe esta cheia de estrelas como Vera Mossa, Cilene, Ana Flávia, Fernanda Doval e até Irina Kirillova. Porém a equipe teve resultados ruins e você e a Vera Mossa acabaram se desligando da equipe. Que motivos acarretaram em sua saída da equipe?
Ida:.Na época em que fomos mandadas embora, eu e a Vera não quisemos falar para não causar mais problemas e polêmica. Fomos mandadas embora, por isso no desligamos da equipe.
Nós só perdíamos e isto era uma vergonha, pelo elenco que tínhamos éramos as grandes favoritas do campeonato. Então após uma derrota vergonhosa de 3x0 para o Rexona pouco antes do Natal, fomos para o vestiário onde tivemos uma reunião com a comissão técnica. Na reunião, o Ari Rabello, então técnico da equipe, disse que não tínhamos vergonha na cara e então eu pedi para falar e ele falou que ninguém tinha que falar nada, porém eu tomei frente e, juntamente com a Vera, dissemos a ele que se o trabalho não estava funcionando, ele fazia parte da equipe e por que a culpa era só nossa, ele não teria parte da culpa?
Existia muita polêmica na equipe, pois as atletas mais novas como a Arlene, a Carol, a Fabiana Berto gostavam muito de mim e da Vera. Saímos com elas, mas nada ao ponto de chegar amanhecendo o dia e isso causou ciúmes com outras atletas mais experientes como a Cilene, que não simpatizava muito comigo (tanto que recentemente fiquei sabendo que ela escreveu em uma comunidade do Orkut algumas coisas a respeito de mim e me chamou de “Ida Barraqueira”)
. O Ari nunca tinha pegado uma equipe com tantas atletas de renome para treinar e seus treinos eram muito fracos; chegavam até dar sono e eu sempre falava para o Claudinho (Cláudio Pinheiro) que era o auxiliar técnico, que ele tinha que tomar frente dos treinos (isso eu já dizia a ele desde a época do BCN/Guarujá, quando ele era auxiliar do Ênio Figueiredo) e ele ficava em cima do muro.
Voltando à questão de sermos demitidas, ele alegou que éramos maus elementos e estávamos contra o trabalho dele. Mandaram-nos embora e disseram que iriam ver se iriam nos pagar e isso nos revoltou, porque nunca chegamos bêbadas ou faltamos nos treinos. Fizeram de tudo para nos prejudicar e, além disso, não eram eles que nos pagariam e sim o Mappin.
N.E.:A equipe base do Mappin/Pinheiros nessa temporada era formada pelas seguintes atletas: Irina Kirillova, Cilene, Ida, Ana Flávia, Vera Mossa e Bia. Entre as reservas, tínhamos: Fabiana Berto, Caroline Albuquerque, Arlene, Daniela Vieira, Renata Dias, Luciana Marques, Fernanda Doval, Deborah Santana e Silmara.
Durante o campeonato a equipe sofreu muitos desfalques. Além da saída de Ida e Vera, na primeira partida da semifinal a levantadora croata Irina Kirillova lesionou gravemente o joelho e teve que ir imediatamente para a Europa para operar, Cilene se lesionou na terceira partida das semifinais e Fernanda Doval não estava muito bem fisicamente, pois se recuperava de cirurgias.
Você teve uma rápida passagem no voleibol italiano pela equipe do Magna Carta Roma. Como foi sua ida, o seu desempenho e o relacionamento com atletas e técnico do clube?
Ida:.Eu recebi o convite da Ana Paula de Tassis Pisoler que fazia parte da equipe e então eu fui para lá passear, treinei e acabei gostando da estrutura do clube e fechei contrato com eles. Eu não tive problemas com alimentação nem com a língua, me adaptei muito bem. Era um time modesto, sem grandes destaques, as únicas estrangeiras conhecidas no time era eu e a própria Ana Paula.
O grande problema para eu me transferir para lá foi novamente o Pinheiros. Eu pedi a transferência no Esporte Clube Pinheiros e um dos dirigentes da equipe, o Wilson, disse que só daria o documento da transferência mediante um valor de 15.000 reais e eu achei um absurdo. Eu contei a situação ao meu pai quer era associado ao clube desde que era criança e fomos conversar com o presidente do clube que é amigo do meu pai. Ele disse que eu tinha que ir pessoalmente ao Mappin, pois eles que faziam os pagamentos e eles cederiam sem problemas.
Fui até o Mappin e contei que eu havia sido demitida, porém não quis contar toda a polêmica; achei muito chato relatar tudo aquilo. Eles me cederam uma carta de liberação na hora sem custo algum.
N.E.:Ida jogou na equipe italiana ao lado de Ana Paula e das seguintes atletas: Elena Elfimova, Laura Bruschini, Mara Palmieri, Valentina Borrelli, Marvi Cipollaro, Annalisa David, Anna Bo, Anna Maria Marasi e Veronica Buffon.
Qual foi o fator determinante para a conquista do título da Superliga para a equipe do Uniban/São Bernardo, equipe que você atuou na temporada 1998/1999, visto que Leites Nestlé e Rexona eram os grandes favoritos?
Ida:.Foi uma passagem muito boa naquela equipe. O grupo era muito bom e muito unido e se encaixou bem: Fofão, Virna, Patrícia Cocco, entre outras. Não havia estrelismo, ninguém queria aparecer, e a força do conjunto foi determinante para a conquista do título.
N.E.:A equipe do Uniban tinha como time base as seguintes atletas: Fofão, Tetyana Ivanyuskina, Ida, Janina, Patrícia Cocco, Virna e Rafaela Félix como líbero. Entre as reservas tínhamos: Sabrina Vasconcellos, Karyn Paiva, Mariângela Alves Sabino, Simone Rivera, Mariya Polyakova, Daniela Berto, Alessandra Oliveira.
Na temporada 1999/2000 você não pode estar em presentes em competições, devido um acidente que sofreu. Como foi esse acidente e a sua recuperação?
Foi um acidente de scooter na Espanha. Tive um ano difícil, pois eu demorei a me recuperar. Fiz uma cirurgia muito delicada aqui no Brasil; eu havia quebrado alguns ossos do rosto, alguns dentes, a perna e com isso fiquei sem jogar essa temporada.
Sua última temporada nas quadras foi no Vasco em 2000/2001, uma equipe cheia de estrelas e favoritíssima, mas que acabou sendo vice-campeã da Superliga. O atraso de salários prejudicou o desempenho da equipe na final da competição? O Vasco chegou a te pagar esses salários atrasados?
Ida:.Acredito que fomos até longe demais devido os problemas de atraso de salários. Eles nunca nos pagaram corretamente; atrasavam dois meses, pagavam um, passava mais um período, pagavam metade do outro mês e assim se seguia. Fiquei sem receber alguns salários até hoje e o caso está correndo na justiça.
N.E.:Eurico Miranda quis montar um time de estrelas, mas esqueceu que era necessário ter recursos financeiros para isso e conseqüentemente ocorreu o que Ida relatou acima. A equipe era repleta de estrelas: Fernanda Venturini, Rosângela Nascimento (Rô), Ida, Márcia Fu, Denise, a croata Natasa Leto e Sandra Suruagy. As reservas eram: Daniela Ciprandi, Camila Adão, Cláudia Souza (Claudinha), Flúvia, Raquel Peluci, Jaline Oliveira, Sassá, Alessandra Menezes e Fabiana Oliveira (Fabi).
Você acha que faltou algo que você não conseguiu no voleibol, que poderia ter alcançado? Tem arrependimento de algo que fez ou deixou de fazer?
Ida:.Eu fiz o que pude fazer, eu não sou uma pessoa frustrada que fica lembrando-se de fatos do passado e se lamentando. Seria o máximo ter ganhado uma medalha de ouro olímpica, mas não foi possível. Não fico presa no passado; eu fui muito feliz e fiz minha história.
N.E.:O que você acha do momento atual da Seleção Brasileira? Você acredita que a nova geração vai dar conta do recado?
Ida:.Eu tenho acompanhado muito pouco, então não tenho muito para opinar, mas eu acho que a geração atual está sendo bem empenhada e vitoriosa como minha geração ou até mais, pois elas têm ganhado praticamente tudo que tem disputado. Acho interessante que essa geração foi construída sem precisar de atletas da minha geração, com exceção da Fofão, e elas não tiveram aquela fase de transição para conseguir resultados; elas se formaram e já começaram ganhar títulos.
N.E.:Como você vê a atual situação da Superliga com poucos times e muitas atletas tendo que ir para o exterior?
Ida:.Eu acho que a CBV está fazendo um ótimo trabalho com as seleções de base e adulta, porém tem se esquecido do trabalho com os clubes e isso não pode ocorrer, pois quem paga os salários às atletas são os clubes. Se essa situação não melhorar as atletas top que ainda estão aqui também terão que ir sair para fora para poderem atuar.
N.E.:Como era a Ida fora das quadras, principalmente na relação com os fãs?
Sempre procurei atender a todos os fãs. Posso ter sido taxada de antipática por algumas pessoas, mas se isso ocorreu foi devido minha timidez e vergonha. Sou uma pessoa reservada.
N.E.:Que atividades você desenvolve hoje? E suas filhas pensam em serem jogadoras?
Ida:.Em Janeiro deste ano eu comecei a trabalhar na Secretaria Municipal de Esportes. A principio eu vou trabalhar com a Paula (basquete) no Centro Olímpico, que é um centro de treinamentos e pesquisas e o seu principal objetivo é o de buscar talentos. Estamos iniciando um trabalho novo, com a reformulação da prefeitura e subprefeituras.
N.E.:Em todos os campeonatos escolares, nós observamos as crianças em ação e as que se destacarem levamos para lá. Temos hoje onze modalidades em ação: basquete, handebol, voleibol, judô, natação, ginástica olímpica, entre outras.
IdaCom relação as minhas filhas, a mais velha já foi jogadora. Começou no Paulistano, onde jogou por um bom tempo e depois se mudou para Maceió-Alagoas, onde participou da seleção alagoana, mas depois não quis dar continuidade a carreira.
N.E.:Você foi técnica da sua filha na Seleção Alagoana juvenil. É uma carreira que você pensa para o futuro?
Ida:.Não, eu não penso em voltar em ser técnica, não gostei muito da experiência. Talvez eu não tenha gostado tanto porque foi lá em Maceió, onde não havia muita estrutura. Pode ser que em São Paulo as coisas tivessem sido diferentes. Mas não no momento, pelo menos não na quadra. Preferiria que fosse na praia.
N.E.:Na praia?
Ida:.Sim. Meu plano é fazer com que exista vôlei de praia em São Paulo. Quero montar algumas coisas por aqui, mostrar que não é preciso do mar para se ter voleibol na areia. E talvez, se conseguir administrar o tempo, pegar uma dupla nova pra ser técnica, passar o que eu já sei. É algo que eu gostaria muito de fazer.
N.E.:A CBV tem um projeto assim, em Saquarema...
Ida:.Pois é, eu penso em fazer a mesma coisa, só que aqui em São Paulo. Muitas meninas deixam o vôlei de quadra até pela falta de altura e ficam sem jogar. Quero dar a elas a oportunidade de jogar na praia. A Juliana, por exemplo, não teve oportunidade na quadra. A praia é um mercado diferente, que pode abrigar mais atletas. Basta ter estrutura.
N.E.:E como a Secretaria de Esportes vê esse seu projeto?
Ida:.Eles querem que eu monte, me incentivam muito. Já existe um plano de fazer algo assim na Represa de Guarapiranga. No Pelezão, na Lapa, onde eu estou, já existe o projeto de colocar uma quadra de areia lá, assim como no Parque do Povo. Incentivo tem, o que falta é patrocínio.
N.E.:Quais atletas você tem contato até hoje e são suas amigas?
Ida:.A Ana Moser devido o seu trabalho que é o de coordenar o Instituto de Esporte e Lazer e com isso temos proximidade, por eu estar trabalhando na mesma área e a Denise Souza, que atualmente mora no Rio de Janeiro e temos contato por telefone.
N.E.:Você falou da Ana Moser. Ao lado dela, você participou da Caravana do Esporte, projeto da ESPN Brasil. Como foi a experiência?
Ida:.Pois é, eu sou uma das atletas que participa voluntariamente da Caravana. E de uma maneira indireta, apresentei o projeto à Secretaria daqui de São Paulo. Minha primeira experiência foi ano passado, na cidade de Uabá, na Bahia. Eu achei o máximo. Acho que é uma maneira de apresentar o esporte às crianças e aos professores do interior do Brasil.
Esses professores muitas vezes sequer são formados em Educação Física, então damos a eles a oportunidade de ver como funciona o esporte educacional. É o que a Ana Moser faz no Instituto de Esporte e Educação. Não visamos a parte competitiva do esporte. Queremos que as crianças brinquem, isso que é importante.
N.E. A Caravana do Esporte é um projeto social que leva o esporte como ferramenta de educação a crianças e adolescentes de cidades de baixa renda do Brasil. Os municípios atendidos são indicados pelo UNICEF, que chancela o projeto, segundo a urgência por ações direcionadas à criança e ao adolescente dessas comunidades, consideradas prioritárias por seu baixo Índice de Desenvolvimento Humano.
A ação da Caravana do Esporte é coordenada pela ESPN Brasil. A proposta metodológica é desenvolvida pelo Instituto Esporte e Educação, presidido por Ana Moser, e a equipe se completa com uma rede de atletas parceiros. Profissionais que aplicam a metodologia do esporte social por meio de jogos educativos nas diversas modalidades esportivas como: futebol, tênis, basquete, vôlei, atletismo, judô, ginástica e canoagem.
Além de Ida, são parceiros da Caravana do Esporte: Ana Moser, Sócrates, Lars Grael, Patrícia Medrado, Afonsinho, Jackie Silva, Wladimir Rodrigues, Pedro de Toledo, Suzete Gobbi, Flávio Honorato, Eduardo Bacellar, Danielle Zangrando, Dayane Camilo e Daniel Rodrigues, dentre outros.
N.E.:O que é ser Melhor do Vôlei?
Ida:.Posso resumir isso em uma frase: “É uma lição de vida”.
N.E.:Ida deixe aqui no Melhor do Vôlei uma mensagem a todas as pessoas que acompanharam sua carreira e que gostam muito desse esporte.
Ida:.Eu defino o Site Melhor do Vôlei como o reconhecimento de um trabalho e que outras ex-atletas fizeram com muito orgulho, onde as pessoas podem ler e conhecer um pouco da história do voleibol brasileiro.
Eu espero que tudo isso, essas informações que são colhidas pelo Melhor do Vôlei que sejam boas para o voleibol e que possa ser útil para quem for ler. Histórias de vida, que possam ser lidas e as coisas boas, as experiências e as lutas levadas para serem vividas em suas vidas no dia a dia. Tirar experiências de vida através de pessoas que saíram do nada e se tornaram vencedoras!
Entrevista concedida a Cleverson Guedes no Melhor do Volei-20ag2007

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